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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O "eu" em Austin


Estamos analisando, a partir de uma certa crítica de Judith Butler (análoga a uma de Derrida), o estatuto do sujeito falante, performativo, na Teoria dos Atos de Fala de John Langshaw Austin. Parece-me que Austin, diversamente da concepção filosófica tradicionalmente iluminista e racionalista, pressupõe um sujeito nada soberano, mesmo que também nada alienado à constatividade.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Frases de Facebook (1)

Uma das atividades mais populares no Facebook é o compartilhamento de uma imagem sob uma frase e o nome de um autor. E os três elementos às vezes até têm relação entre si, quem diria. Jocosidade à parte, um dos campeões em menções é nosso caro Freud, então pensei em oferecer meus dois centavos na contribuição para a nitidez e densidade da sabedoria (ou não) que anda sendo disseminada, de forma algo caótica, por esta tendência, pescando e contextualizando algumas das frases que me forem familiares. Vamos lá.

A frase:

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Masoquismo moral e criminalidade

Vida y destino, por Jesús Rodríguez.

Se houve um conceito freudiano com o qual esbarrei recorrentemente durante o estudo dos temas que mais me atraem foi o de masoquismo moral. Tenho uma vaga noção de que poderia ser decisivo numa abordagem psicanalítica dos fenômenos que Girard chama de expiatórios, por exemplo, e isso tanto para a clínica do sujeito quanto a da cultura. De que se trata, então?

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre o ciúme "competitivo"

Jealousy ("ciúme"), por Olivier Thereaux
Em um texto de 1922, chamado Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, Freud distingue três tipos de ciúme: o competitivo, o projetado e o delirante. Sobre o primeiro ele escreve que "não há muito a dizer, do ponto de vista analítico", mas talvez hoje em dia, depois que suas ideias, mais bombásticas, sobre os outros dois tipos já deixaram de ser novidade e estão razoavelmente assimiladas culturalmente, valha a pena retomarmos em algum detalhe o campo do ciúme que Freud chama de "normal".

domingo, 22 de julho de 2012

Das Unheimliche

Shadow monster ("Monstro de sombra"), de John Conway
Em seu texto O estranho, Freud (1996 [1919]) toma a reação de estranhamento como tema, através da análise do adjetivo unheimlich e sua forma substantiva, termo que, diz Freud, pertence ao discurso estético, à “teoria das qualidades do sentir” (Ibid., p. 237).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Figurações da angústia: o diabo (2)


Os poderes sobre-humanos do diabo correspondem à idealização que a criança faz da potência sexual de seu pai, um dos quatro elementos que Jones (1971) distingue como constituindo a encruzilhada fálico-edípica que sua figura personifica; é pai e filho, em um eixo, e admirado e odiado, em outro. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na captura dos Friedmans


Se há um documentário que esboça abordar a psicodinâmica do processo de acusação e a ancoragem da figura do criminoso sexual na fantasia, é Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki. 

O filme reconstitui, utilizando-se de registros em vídeo da época e da coleta atual de depoimentos, a estória do julgamento e prisão de Arnold Friedman e seu filho caçula, acusados de pedofilia. A interceptação pela polícia de revistas de tal conteúdo endereçadas pelo correio ao Sr. Friedman serve como ponto de partida e fornece a única prova material de um processo que adquirirá um escopo e uma visibilidade impressionantes através da proliferação de depoimentos de crianças – supostamente vítimas de assédio durante as aulas ministradas por Arnold – e cobertura midiática intensa. Acompanha-se, passo a passo, a dimensão que o julgamento vai tomando, a mobilização de um número cada vez maior de pessoas em torno da família Friedman, desde os pais de crianças supostamente molestadas até os telespectadores dos noticiários nacionais, e a força que tal mobilização vai aplicando sobre as estratégias e decisões judiciais. Momentos exemplares ocorrem quando os acusados, em desespero, declaram-se culpados de assédio, por insistência de seus próprios advogados, como manobra de barganha em relação à pena. A forma indisfarçadamente diretiva pela qual são colhidos os depoimentos das crianças e as incoerências e contradições que estes  evidenciam deixam bem claro o quanto de bom senso estavam todos os envolvidos dispostos a sacrificar, conscientemente ou não, em nome das moções pulsionais que impeliam todo o processo. 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sobre a méconnaissance

Um outro link entre Austin e a psicanálise exigirá que compreendamos o conceito girardiano de méconnaissance, termo que foi traduzido como ‘desconhecimento’, mas que remete mais exatamente a uma má compreensão, uma ciência parcial e distorcida. O objeto da méconnaissance em última instância é o que Girard não cansou de estudar: o mecanismo expiatório como um todo - o complexo movimento de eleição e vitimação unânime de um modelo-obstáculo em comum - mas ela atua sobre seus elementos específicos de modo distinto.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A interpretação psicanalítica e a pragmática da linguagem


Austin é um caso intrigante: pouco estudado, não deixou de ser citado, no entanto, por gente do calibre de um Derrida. Agora que o inglês está devidamente apresentado aqui no blog, posso esboçar alguns links entre a teoria dos atos de fala e a psicanálise; eles prometem, a meu ver, enriquecer ambos os saberes. A começar pela luz que pode ser lançada sobre a concepção que sustentemos a respeito de nossas intervenções na clínica, e, mais especificamente, seu caráter interpretativo. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung - parte 5

(continuado de posts anteriores...)

 A Verleugnung da morte já aparecera explicitamente, em textos anteriores, vinculada à religião, que a partir de 1907 é tomada como “neurose obsessiva universal” (Freud, 1907b/1996, p. 116). Em Reflexões para os tempos de guerra e morte (Freud, 1915/1996), a “concepção de uma vida que continua após [a] morte aparente” (Freud, 1915/1996, p. 304), ou até a mera “divisão do indivíduo em corpo e alma” (Ibid., p. 304), que fornecem a matéria-prima a toda sorte de crença em “existências pretéritas”, “transmigração das almas” ou “reencarnação” (Ibid., p. 305), constituem uma “negação [Verleugnung] da morte, (...) uma atitude ‘convencional e cultural’” (Ibid., p. 305). A relação persiste em O futuro de uma ilusão (Freud, 1927b/1996), texto contemporâneo a Fetichismo: “a religião (...) abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio [Verleugnung] da realidade” (Freud, 1927b/1996, p. 52).

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung - parte 4


(continuado de posts anteriores...)

 O termo Verleugnung vem sendo traduzido de muitas maneiras diferentes – rejeição, recusa, desmentido, negação, denegação, renegação –, o que acredito refletir justamente sua pluralidade de usos e contextos na própria obra freudiana. A tradução inglesa vigente – rejeição –, assim como a escolha por ‘recusa’ (em menor extensão), parecem enfatizar uma relação direta entre Verleugnung e psicose, algo que vinha sendo construído por Freud explicitamente até 1927, e que não deixa de aparecer ainda em textos bem posteriores, como Construções em análise (Freud, 1937/1996).

terça-feira, 26 de junho de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung - parte 3


(continuado do post anterior...)

O fetichismo e o texto freudiano a ele dedicado tornaram-se o principal ponto de ancoragem de grande parte do discurso psicanalítico dedicado ao campo da perversão. Valas (1990), por exemplo, escreve:

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung - parte 2

(continuado do post anterior...)


Limitações de ordem prática nos impedem de fazer aqui um retorno atento a Sobre o narcisismo: uma introdução (Freud, 1914/1996), mas basta dizer que é possível, a partir deste texto, construir a hipótese segundo a qual, descontados os estereotipados coadjuvantes das fantasias neuróticas, os expedientes narcísicos disseminam-se também pelo continuum neurose-psicose, tendo seu ápice de explicitação certamente não em um terceiro pólo, mas talvez no represamento libidinal e conseqüente desligamento do mundo externo típico do campo psicótico.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung

O artigo a seguir foi rejeitado para publicação em um periódico de Psicanálise; talvez, pois, as ideias estejam ainda desencontradas. Mas acredito que valha para introduzir a questão: como pensar a Verleugnung dentro desta abordagem desconstrucionista da perversão que venho sugerindo nos posts? 

segunda-feira, 19 de março de 2012

Freud e a "perversão": os Três ensaios (5)


Da última vez dizíamos que o único critério possível para avaliar o caráter patológico de determinada configuração da sexualidade é seu grau de rigidez, fixação ou exclusividade. Pois bem, é bom lembrar que isto se aplica também à heterossexualidade monogâmica ou qualquer outro candidato a normalidade sexual que se apresente. Como Freud indicaria em uma de suas conferências, a genitalidade tradicional, ortodoxa, calcada na diferença sexual e na teleologia da reprodução da espécie não passa de mais uma "bem organizada tirania". Mas voltemos ao texto de 1905.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Freud e a "perversão": os Três ensaios (4)


Estamos de volta, e com novo visual, cortesia da talentosa Nicole Soares. Obrigado, Nicole!

Falávamos da "democratização" freudiana dos mecanismos que subjazem às práticas sexuais mais caricatas. Pois bem, ela comparece de forma particularmente nítida à seção seguinte dos Três ensaios, intitulada “fixações de alvos sexuais provisórios” (Freud, 1996 [1905], p. 147), onde Freud se debruça sobre a escopofilia, o exibicionismo, o sadismo e o masoquismo. 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Freud e a "perversão": os Três ensaios (3)

Terminamos o último post mencionando o conflito entre supervalorização e asco. Pois bem, a supervalorização é a força que “não suporta bem a restrição do alvo sexual à união dos órgãos genitais propriamente ditos” (Ibid., p. 142). Essa força, responsável pelo que tradicionalmente se diria serem ‘desvios’ do alvo sexual ‘normal’ (será assemelhada progressivamente à pulsão em si), é também, no entanto, a fonte da “credulidade do amor” (Ibid., p. 142), do que só pode ser entendido como a mais corriqueira paixão romântica: “uma cegueira lógica (enfraquecimento do juízo) perante as realizações anímicas e as perfeições do objeto sexual” (Ibid., p. 142). Através disso, a supervalorização seria também a fonte de qualquer atitude de submissão à autoridade (Ibid., p. 142). 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Freud e a "perversão": os Três ensaios (2)


Continuamos nossa leitura dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade a partir da seção em que Freud passa da análise da bissexualidade à da radical contingência de alvos e objetos da pulsão sexual, seção esta dedicada a “animais e pessoas sexualmente imaturas como objetos sexuais” (Freud, 1996 [1905], p. 140).  

domingo, 18 de dezembro de 2011

Finde didático: Melanie Klein (2)


As angústias persecutórias eventualmente forçarão a criança a deslocar seu interesse da mãe para o resto do mundo a seu redor, para onde, no entanto, carregará as fantasias, atualizando-as. Este é o rudimento da formação de símbolos, para o qual é necessária uma quantidade ótima de angústia: se for excessiva, instigará defesas mais radicais, como a negação do interesse pela mãe,  que a partir disto não tem como ser simbolizado em outras relações. 

Um exemplo deste deslocamento surge com a analidade, que introduz um novo símbolo para estas “imagos internas punitivas e terrificantes” (Segal, 1975, p. 17) – as fezes – bem como atualiza o suporte das estratégias psíquicas para lidar com elas – retenção e ejeção. A retaliação fantasiada dos objetos desloca-se da fantasmagoria oral da violência para a fantasmagoria do envenenamento. Aqui Klein localiza o “ponto de fixação da paranóia” (Klein, 1996 [1930], p. 264).

Um dos suportes mais importantes de um deslocamento deste tipo é o objeto de desejo da mãe (tipicamente o pai), à medida que a criança vai sendo emancipada do corpo materno e à medida que a mãe vai sendo percebida como faltosa. A partir desta emancipação a projeção da agressividade da criança pode dar origem à “experiência da cena primária como um acontecimento sádico e terrificante” (Segal, loc. cit.).

É quando as “figuras más” (Ibid., p. 17) se engancham nos pais como casal que elas começam a apresentar as feições do supereu edípico: é, aliás, a partir disto que se desenvolve o complexo, cujos estágios iniciais Klein localiza em um período bem anterior ao indicado por Freud, um período ainda dominado pelo sadismo oral, tão precoce quanto o “segundo trimestre do primeiro ano de vida” (Klein, 1991 [1958], p. 273).

O desejo erótico pela mãe ou pelo pai não basta para explicar o desespero com que a criança os procura: ocorre que suas pessoas reais são sempre bem menos terríveis que suas representações psíquicas sádico-orais. Por mais negligentes ou mesmo cruéis que os cuidadores reais possam ser, eles nunca poderão competir com o horror proveniente da pura pulsionalidade de morte da criança, que tinge seus representantes psíquicos. São, no mínimo, minimamente intermitentes, posto que externos. O contato com pessoas reais, quaisquer que sejam, permite que o bebê teste seu mundo interno através das evidências oriundas do mundo externo. 

Ao serem internalizados, os acontecimentos, as pessoas, as coisas e as situações (...) tornam-se inacessíveis à observação e juízo preciso da criança, não podendo ser verificados pelos meios de percepção disponíveis em relação ao mundo tangível dos objetos. As dúvidas, incertezas e [angústias] que surgem como conseqüência disso agem como incentivo contínuo para que a criança pequena observe e se certifique do mundo externo dos objetos que dá origem a esse mundo interno (Id., 1996 [1940], p. 389).

Portanto, ao lado do ciúme conseqüente da ancoragem libidinal na mãe – ancoragem que Freud valorizara e que aparece em Klein também como intenção de reparar na realidade o “dano feito em fantasia” (Segal, 1975, p. 18) – há, na origem do complexo, uma espécie de anseio por um rival objetivo, mais realista. Klein (1996 [1929], p. 245) aproxima este anseio da idéia de necessidade de punição, que Freud (1996 [1924]) substituíra à noção mais nebulosa de um sentimento de culpa inconsciente, que por sua vez servira anteriormente (Id., 1996 [1916]) de hipótese para explicar a motivação para o crime. Se este é um motivo importante no estabelecimento do complexo de Édipo, segue-se que “o [supereu] não apenas precede o complexo de Édipo, mas também promove seu desenvolvimento” (Segal, loc. cit.).

Referências:
FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1916) Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico.  In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, M. (1958) Sobre o desenvolvimento do funcionamento mental. In: ____. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

____. (1940) O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos  (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1929) Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.