Ler Rorty é uma coisa terapêutica; acho até que seus livros poderiam ser categorizados como de "auto-ajuda", não fosse este espaço dominado, antes, pelo fomento ao auto-engano narcisista e pela ortopedia egóica mais rasteira. Mas é que se há um ímpeto que atravessa suas ideias de uma ponta a outra, ele é, a meu ver, e em termos freudianos, o ímpeto de desbastamento de excessos superegóicos.
Mostrando postagens com marcador narcisismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador narcisismo. Mostrar todas as postagens
domingo, 12 de agosto de 2012
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Frases de Facebook (1)
Uma das atividades mais populares no Facebook é o compartilhamento de uma imagem sob uma frase e o nome de um autor. E os três elementos às vezes até têm relação entre si, quem diria. Jocosidade à parte, um dos campeões em menções é nosso caro Freud, então pensei em oferecer meus dois centavos na contribuição para a nitidez e densidade da sabedoria (ou não) que anda sendo disseminada, de forma algo caótica, por esta tendência, pescando e contextualizando algumas das frases que me forem familiares. Vamos lá.
A frase:
segunda-feira, 23 de julho de 2012
O homem da areia
![]() |
| E. T. A. Hoffmann, auto-retrato |
Dizíamos que O homem da areia, conto de E.T.A. Hoffmann, foi analisado por Freud como emblemático do tipo de fantasia, no plano fálico, que suscita a reação de estranheza, inquietude ou horror: a fantasia de feminização diante da figura paterna, que instaura um impasse entre incesto e castração.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Na mídia (1)
Terminei um post sobre o narcisismo dizendo que ele estava nos olhos de quem vê. Pois hoje me deparo com uma notícia que me fez voltar ao tema. Não que o vocabulário neurocientífico não irrite um pouco - quem já está cansado desse revival do materialismo mais objetificante levante a mão -, e não que não se esteja, como de costume, descobrindo o óbvio - no caso, que a percepção é atravessada pelo significante, como diria Lacan -, mas fico feliz que o tema seja abordado, estudado e que as conclusões façam eco a outras considerações que acho interessantes.
Por exemplo, à crítica de Girard a qualquer noção de narcisismo que não seja efeito de uma atribuição por parte de um outro. O que o estudo flagra é justamente essa atribuição de valor que alça um objeto a uma plenitude da qual na verdade carece. Acontece que é também exatamente isso que fazemos quando se trata não de objetos, mas de pessoas; basta ligar a TV para percebê-lo. Aliás, que o entretenimento - que se passa por arte - está hoje, como nunca, estruturado em torno da promoção de celebridade não é segredo.
Pois bem, se admitimos isso, não é só "a maneira como vemos a arte" que "não é racional", mas a maneira como vemos (o mundo). Mas, mais que isso, ela não só não é racional, mas é, mais especificamente, política. Era, aliás, o que eu dizia mais cedo.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Freud implica (4)
"O narcisismo de outra pessoa exerce grande atração sobre aqueles que renunciaram a uma parte de seu próprio narcisismo e estão em busca do amor objetal. O encanto de uma criança reside em grande medida em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade, assim como também o encanto de certos animais que parecem não se preocupar conosco, tais como os gatos e os grandes animais carniceiros. Realmente, mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela coerência narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que os diminua" (Freud, 1996 [1914], p. 95-96).
Este é de "Sobre o narcisismo", de 1914.
Este texto é denso e considerado crucial no desenvolvimento da metapsicologia freudiana. Mas esse trecho é raramente citado, e pra mim ele fala muito; vou tentar explicar.
O contexto é Freud fazendo a diferenciação entre dois tipos básicos de amores: amor ao outro e amor a si próprio. O escopo do amor a si próprio vai sendo ampliado de tal forma que fica difícil conceber qualquer amor que não carregue algum "estigma narcisista", como ele diz. O amor ao outro pode tomar feições narcísicas, por exemplo, quando se ama o que se gostaria de ser, ou quando se ama alguém que o completará, ou quando se ama alguém ou algo que faz parte de si ou é seu produto (algo particularmente frequente no mais corriqueiro amor de pais por seus filhos).
Pois bem, dado que o narcisismo é um estigma tão influente nas relações humanas, a genialidade deste trecho está em desconstrui-lo. Porque aqui Freud faz uma lista de candidatos a narcisistas verdadeiros (aqueles que só amam a si próprios), e ela acaba sendo uma lista não de sujeitos, mas de objetos: um desfile de seres que nos encantam e atraem nosso interesse porque supomos que são auto-suficientes e inacessíveis.
Não sei se me fiz entender, mas percebam: o trecho é todo escrito na primeira pessoa do plural. Quem somos "nós" que nos fascinamos com o suposto autocontentamento das crianças, que nos interessamos por personagens literários narcisistas, que admiramos aqueles que parecem não se importarem conosco? Ora, somos nós, os humanos, que renunciamos, inescapavelmente, a uma parte de nosso próprio (e mítico) narcisismo.
Ou isso ou Freud estava aqui começando a se aventurar no psiquismo dos grandes animais carniceiros, estes narcisistas, e desistiu antes que pudesse escrever suas recomendações para a zooanálise. Acho pouco provável.
Pra mim é surpreendente, pois, que o narcisismo tenha se tornado uma categoria diagnóstica na psicanálise contemporânea - como era, aliás, no século XIX, antes que Freud o abordasse e o transformasse em um mecanismo absolutamente disseminado, demasiadamente humano. É que a beleza está nos olhos do observador - e a plenitude e o "narcisismo" também.
Este é de "Sobre o narcisismo", de 1914.
Este texto é denso e considerado crucial no desenvolvimento da metapsicologia freudiana. Mas esse trecho é raramente citado, e pra mim ele fala muito; vou tentar explicar.
O contexto é Freud fazendo a diferenciação entre dois tipos básicos de amores: amor ao outro e amor a si próprio. O escopo do amor a si próprio vai sendo ampliado de tal forma que fica difícil conceber qualquer amor que não carregue algum "estigma narcisista", como ele diz. O amor ao outro pode tomar feições narcísicas, por exemplo, quando se ama o que se gostaria de ser, ou quando se ama alguém que o completará, ou quando se ama alguém ou algo que faz parte de si ou é seu produto (algo particularmente frequente no mais corriqueiro amor de pais por seus filhos).
Pois bem, dado que o narcisismo é um estigma tão influente nas relações humanas, a genialidade deste trecho está em desconstrui-lo. Porque aqui Freud faz uma lista de candidatos a narcisistas verdadeiros (aqueles que só amam a si próprios), e ela acaba sendo uma lista não de sujeitos, mas de objetos: um desfile de seres que nos encantam e atraem nosso interesse porque supomos que são auto-suficientes e inacessíveis.
Não sei se me fiz entender, mas percebam: o trecho é todo escrito na primeira pessoa do plural. Quem somos "nós" que nos fascinamos com o suposto autocontentamento das crianças, que nos interessamos por personagens literários narcisistas, que admiramos aqueles que parecem não se importarem conosco? Ora, somos nós, os humanos, que renunciamos, inescapavelmente, a uma parte de nosso próprio (e mítico) narcisismo.
Ou isso ou Freud estava aqui começando a se aventurar no psiquismo dos grandes animais carniceiros, estes narcisistas, e desistiu antes que pudesse escrever suas recomendações para a zooanálise. Acho pouco provável.
Pra mim é surpreendente, pois, que o narcisismo tenha se tornado uma categoria diagnóstica na psicanálise contemporânea - como era, aliás, no século XIX, antes que Freud o abordasse e o transformasse em um mecanismo absolutamente disseminado, demasiadamente humano. É que a beleza está nos olhos do observador - e a plenitude e o "narcisismo" também.
Assinar:
Postagens (Atom)


