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domingo, 12 de agosto de 2012

Finde didático: Richard Rorty (2)


Ler Rorty é uma coisa terapêutica; acho até que seus livros poderiam ser categorizados como de "auto-ajuda", não fosse este espaço dominado, antes, pelo fomento ao auto-engano narcisista e pela ortopedia egóica mais rasteira. Mas é que se há um ímpeto que atravessa suas ideias de uma ponta a outra, ele é, a meu ver, e em termos freudianos, o ímpeto de desbastamento de excessos superegóicos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Frases de Facebook (1)

Uma das atividades mais populares no Facebook é o compartilhamento de uma imagem sob uma frase e o nome de um autor. E os três elementos às vezes até têm relação entre si, quem diria. Jocosidade à parte, um dos campeões em menções é nosso caro Freud, então pensei em oferecer meus dois centavos na contribuição para a nitidez e densidade da sabedoria (ou não) que anda sendo disseminada, de forma algo caótica, por esta tendência, pescando e contextualizando algumas das frases que me forem familiares. Vamos lá.

A frase:

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O homem da areia


E. T. A. Hoffmann, auto-retrato

Dizíamos que O homem da areia, conto de E.T.A. Hoffmann, foi analisado por Freud como emblemático do tipo de fantasia, no plano fálico, que suscita a reação de estranheza, inquietude ou horror: a fantasia de feminização diante da figura paterna, que instaura um impasse entre incesto e castração. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Na mídia (1)

Terminei um post sobre o narcisismo dizendo que ele estava nos olhos de quem vê. Pois hoje me deparo com uma notícia que me fez voltar ao tema. Não que o vocabulário neurocientífico não irrite um pouco - quem já está cansado desse revival do materialismo mais objetificante levante a mão -, e não que não se esteja, como de costume, descobrindo o óbvio - no caso, que a percepção é atravessada pelo significante, como diria Lacan -, mas fico feliz que o tema seja abordado, estudado e que as conclusões façam eco a outras considerações que acho interessantes.

Por exemplo, à crítica de Girard a qualquer noção de narcisismo que não seja efeito de uma atribuição por parte de um outro. O que o estudo flagra é justamente essa atribuição de valor que alça um objeto a uma plenitude da qual na verdade carece. Acontece que é também exatamente isso que fazemos quando se trata não de objetos, mas de pessoas; basta ligar a TV para percebê-lo. Aliás, que o entretenimento - que se passa por arte - está hoje, como nunca, estruturado em torno da promoção de celebridade não é segredo.

Pois bem, se admitimos isso, não é só "a maneira como vemos a arte" que "não é racional", mas a maneira como vemos (o mundo). Mas, mais que isso, ela não só não é racional, mas é, mais especificamente, política. Era, aliás, o que eu dizia mais cedo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Freud implica (4)

"O narcisismo de outra pessoa exerce grande atração sobre aqueles que renunciaram a uma parte de seu próprio narcisismo e estão em busca do amor objetal. O encanto de uma criança reside em grande medida em seu narcisismo, seu autocontentamento e inacessibilidade, assim como também o encanto de certos animais que parecem não se preocupar conosco, tais como os gatos e os grandes animais carniceiros. Realmente, mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela coerência narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que os diminua" (Freud, 1996 [1914], p. 95-96).

Este é de "Sobre o narcisismo", de 1914.

Este texto é denso e considerado crucial no desenvolvimento da metapsicologia freudiana. Mas esse trecho é raramente citado, e pra mim ele fala muito; vou tentar explicar.

O contexto é Freud fazendo a diferenciação entre dois tipos básicos de amores: amor ao outro e amor a si próprio. O escopo do amor a si próprio vai sendo ampliado de tal forma que fica difícil conceber qualquer amor que não carregue algum "estigma narcisista", como ele diz. O amor ao outro pode tomar feições narcísicas, por exemplo, quando se ama o que se gostaria de ser, ou quando se ama alguém que o completará, ou quando se ama alguém ou algo que faz parte de si ou é seu produto (algo particularmente frequente no mais corriqueiro amor de pais por seus filhos).

Pois bem, dado que o narcisismo é um estigma tão influente nas relações humanas, a genialidade deste trecho está em desconstrui-lo. Porque aqui Freud faz uma lista de candidatos a narcisistas verdadeiros (aqueles que só amam a si próprios), e ela acaba sendo uma lista não de sujeitos, mas de objetos: um desfile de seres que nos encantam e atraem nosso interesse porque supomos que são auto-suficientes e inacessíveis.

Não sei se me fiz entender, mas percebam: o trecho é todo escrito na primeira pessoa do plural. Quem somos "nós" que nos fascinamos com o suposto autocontentamento das crianças, que nos interessamos por personagens literários narcisistas, que admiramos aqueles que parecem não se importarem conosco? Ora, somos nós, os humanos, que renunciamos, inescapavelmente, a uma parte de nosso próprio (e mítico) narcisismo.

Ou isso ou Freud estava aqui começando a se aventurar no psiquismo dos grandes animais carniceiros, estes narcisistas, e desistiu antes que pudesse escrever suas recomendações para a zooanálise. Acho pouco provável.

Pra mim é surpreendente, pois, que o narcisismo tenha se tornado uma categoria diagnóstica na psicanálise contemporânea - como era, aliás, no século XIX, antes que Freud o abordasse e o transformasse em um mecanismo absolutamente disseminado, demasiadamente humano. É que a beleza está nos olhos do observador - e a plenitude e o "narcisismo" também.