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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Atribuição de agência (3)

(continuado dos posts anteriores...)

"Tu és aquele..."
Em consonância com um dos exemplos de Lacan, diríamos que a atribuição de agência mais fundamental tem a forma “tu és aquele que age”, com o verbo agir na impessoal terceira pessoa, já que este momento é prévio à “personação do sujeito a que se endereça” (Lacan, 2002 [1955-56], p. 316). Refiro-me à distinção que o autor faz entre os enunciados "tu és aquele que me seguirá" e "tu és aquele que me seguirás", que em Francês são homófonos.

domingo, 8 de julho de 2012

Atribuição de agência (2)

(continuado do post anterior...)

A extensão da área da vida psíquica em que atuam modalidades de atribuição de agência é vasta, proporcional ao quão básico parece ser tal mecanismo. Sendo ou não relativo à questão expiatória, pode-se identificá-lo em inúmeros fenômenos: surge como atribuição de intencionalidade, por exemplo, no animismo, que não é privilégio dos povos primitivos, como assinala Lacan:

Há pessoas capazes de dizer que, no interior do organismo, as diversas ordens de secreção interna trocam entre si mensagens, sob a forma por exemplo de hormônios que vêm avisar aos ovários que está tudo bem, ou, ao contrário, que isso claudica ligeiramente (Lacan, 2002 [1955-56], p. 214).

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Atribuição de agência (1)

A partir do pensamento de René Girard pode ser delineada, por trás de suas várias roupagens, determinada tendência humana de exteriorização de causalidade – um aspecto da méconnaissance – que parece estar na base dos fenômenos expiatórios e que implica em que a identificação do agente em uma dada situação seja um trabalho psíquico: o agente não é dado, mas construído, negociado. Tentarei aqui delinear a noção desta tendência – à qual gostaria de me referir pela expressão atribuição de agência – em diálogo com Lacan e o filósofo da linguagem John Langshaw Austin.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A interpretação psicanalítica e a pragmática da linguagem


Austin é um caso intrigante: pouco estudado, não deixou de ser citado, no entanto, por gente do calibre de um Derrida. Agora que o inglês está devidamente apresentado aqui no blog, posso esboçar alguns links entre a teoria dos atos de fala e a psicanálise; eles prometem, a meu ver, enriquecer ambos os saberes. A começar pela luz que pode ser lançada sobre a concepção que sustentemos a respeito de nossas intervenções na clínica, e, mais especificamente, seu caráter interpretativo. 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Finde didático: Girard (2)

As idéias de Girard que dialogam mais diretamente com a psicanálise - ou ao menos com a metapsicologia -talvez sejam as que se referem ao estatuto e caráter do desejo nas relações humanas. Afastando-se do senso comum que privilegia o objeto como elemento determinante do desejo, Girard denuncia a arbitrariedade de sua eleição e introduz um terceiro termo na relação sujeito-objeto ao qual dá primazia: o rival, que não meramente “deseja o mesmo objeto que o sujeito” (Girard, 1990 [1972], p. 184), mas sim designa o objeto ao sujeito como desejável simplesmente porque ele próprio o deseja.

O homem deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois é o ser que ele deseja, um ser do qual se sente privado e do qual algum outro parece-lhe ser dotado. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser (Ibid., p. 184).

O rival, pois, é um outro percebido como mais pleno, “aparentemente já dotado de um ser superior” (Ibid., p. 184), e que, no entanto, deseja. O que um outro superior em plenitude deseja só pode ser algo “sumamente desejável” (Ibid., p. 184), e assim o desejo do rival torna-se o modelo de desejo para o sujeito que não sabe exatamente o que desejar, apesar de desejar intensamente. Disto decorre que o desejo é essencialmente mimético, imitativo, e que todo modelo é desde sempre rival, todo modelo é ao mesmo tempo obstáculo. Não é o valor do objeto que provoca a rivalidade, mas é a rivalidade que cria e valoriza o objeto.

Desnecessário dizer que o desejo do próprio modelo na verdade também é mimético – o modelo também tem um modelo, por assim dizer – e que a posição de imitador (Girard a chama posição de discípulo) “é a única essencial. É por meio dela que deve ser definida a situação humana fundamental” (Ibid., p. 185).

As origens do mimetismo serão buscadas na infância, onde, segundo o autor, o caráter mimético do desejo é mais evidente e “universalmente reconhecido” (Ibid., p. 184). A criança é o discípulo por excelência e os adultos significativos os modelos-obstáculos naturais. “As crianças não sabem o que desejar e têm necessidade de que se lhes ensine” (Girard, 2004 [1982], p. 173). A demanda que a criança dirige ao adulto, pois, é a de suplência “não a uma falta que seria o desejo, mas à falta do próprio desejo” (Ibid., p. 174). (1)

Ocorre que a criança é especialmente vulnerável às conseqüências desastrosas de seu mimetismo: elegendo o adulto como modelo, encontra nele também um obstáculo intransponível. Precipitando-se com avidez em direção ao objeto do desejo que imita, encontra invariavelmente a “violência do desejo adverso” (Girard, 1990 [1972], p. 187), o "não!" do modelo-obstáculo, diante do qual é impotente. 

Mais impactante e decisivo nas primeiras experiências do que o objeto nunca realmente encontrado, o terceiro termo da estrutura do desejo, o rival ou modelo-obstáculo terminará por tornar-se o elemento principal da dinâmica desejante.

Sempre não encontrando mais que obstáculos em seu caminho, ele [o desejo] os incorpora à sua visão do desejável e os faz passar para o primeiro plano; ele não pode mais desejar sem eles; ele os cultiva com avidez. É assim que ele se torna paixão odiosa do obstáculo (Girard, 2004 [1982], pp. 175-176).
Já havia esboçado aqui uma aplicação destas idéias à abordagem do futebol como fenômeno cultural, em particular acerca da violência entre torcidas, que ronda o esporte desde que me entendo por gente; talvez agora tais considerações estejam mais permeáveis.

Voltaremos a Girard, certamente, mas para saber mais sobre o autor a dica desde já é a Biblioteca René Girard, da É Realizações Editora. Bom domingo e até!

Notas:
(1) Adiantando um possível diálogo com a psicanálise, que podemos e provavelmente iremos promover eventualmente aqui, note-se a semelhança destas idéias com a noção da arbitrariedade do objeto da pulsão em Freud, bem como a de insaciabilidade do amor infantil, ambas já abordadas de passagem no blog. E, ainda, já me foi sugerido que a concepção do desejo mimético se aproxima muito das considerações de Lacan sobre a dinâmica especular durante o estádio do espelho.

Referências:
GIRARD, R. (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os dados dos sentidos

Ainda pensando sobre o atravessamento da percepção pela linguagem, lembrei que John Austin, um de meus filósofos preferidos, disse bastante a respeito. E como ele não é tão conhecido assim - mormente entre os psicólogos -, creio que vale uma breve exposição aqui.

As conferências de Austin sobre o tema são movidas por uma crítica à entidade “dados dos sentidos”, criada e mantida por uma dicotomia que a opõe às coisas materiais ou coisas no mundo. Ao conjunto destas conferências Austin dava o título ‘Sense and sensibilia’, que alude tanto aos elementos sensoriais, os supostos dados da sensação, quanto à dimensão do significado, através do polissêmico termo ‘sense’. (1) 

Se Lacan localiza a teoria fenomenológica da percepção na herança da escolástica medieval, Austin faz remontar as doutrinas que critica “pelo menos a Heráclito” (Austin, 1993 [1962], p. 7), passando ainda por Descartes e Berkeley.
"A doutrina geral, enunciada na sua generalidade, apresenta-se assim: nós nunca vemos, ou, de outro modo, percebemos (ou “sentimos”), ou, de qualquer maneira, nunca percebemos ou sentimos diretamente objetos materiais (ou coisas materiais), mas somente dados dos sentidos (ou nossas próprias idéias, impressões, sensa, percepções sensíveis, perceptos, etc.)" (Austin, 1993 [1962], pp. 8-9).

Austin frisa que tais teorias só podem nascer de um certo academicismo (Austin, 1993 [1962], p. 9), sendo os dados dos sentidos entidades puramente conceituais, criadas para serem “a resposta apropriada e exata à questão de saber o que [as pessoas] percebem” (Austin, 1993 [1962], p. 31), já que as coisas materiais são supostamente por demais enganadoras em suas mutações e disfarces para ocuparem este lugar.

Ao invés de sustentar a tese oposta (e gêmea), a que se poderia chamar de realista, segundo a qual o que se percebe são as coisas materiais (Austin, 1993 [1962], p. 10), Austin vai sublinhar a ampla gama de espécies diferentes de coisas que percebemos, irredutíveis a uma só entidade, seja “dados dos sentidos” seja “coisas materiais”:

"Podemos pensar, por exemplo, em pessoas, vozes, rios, montanhas, chamas, arco-íris, sombras, imagens na tela do cinema, gravuras em livros ou penduradas numa parede, vapores, gases – em tudo aquilo que as pessoas dizem que vêem (ou, em alguns casos, ouvem ou cheiram, i. e., “percebem”). São todas elas “coisas materiais”? Em caso contrário, quais exatamente não o são, e exatamente por quê? Não nos é concedida nenhuma resposta. O problema é que a expressão “coisa material” já está funcionando, desde o início, simplesmente como contraste para “dados dos sentidos”; não lhe atribuem neste caso, nem em qualquer outro, nenhum outro papel para desempenhar, e, além disso, não ocorreria a ninguém tentar representar como um único tipo de coisas as coisas que o homem comum diz que “percebe”" (Austin, 1993 [1962], p. 16).

Assim, os fatos da percepção são “muito mais diversos e complexos do que se tem pensado” (Austin, 1993 [1962], p. 10), e esta complexidade será demonstrada e avaliada justamente recorrendo-se à diversidade própria à linguagem, particularmente aos usos das palavras correntes, que “marcam muito mais distinções do que as vislumbradas pelos filósofos” (Austin, 1993 [1962], p. 10).

Eis esboçada uma abordagem lingüística e pragmática (pois é análise dos usos) da percepção, que se afasta tanto do empirismo quanto do que o racionalismo tem de reificador do que é, antes, abstrato e conceitual. Ambas as correntes, diz Austin, estão mais interessadas no conhecimento que na percepção, e orientam-se irresistivelmente por questões de certeza e dúvida: o interesse é “não tanto no ver, mas, sobretudo, naquilo de que não se pode duvidar” (Austin, 1993 [1962], p. 140). É curioso, neste sentido, que o experimento que citamos no post anterior tenha se estruturado em torno da questão da autenticidade (e da dúvida a seu respeito). Se eu fosse implicante insinuaria que isso é sintoma da aspiração epistemofílica da ciência - ainda tão moderna - de "purificar" a percepção; mas que esta é uma necessidade para que mantenha a suposição de saber que a pólis lhe dirige, isso é.

Enfim, nestas conferências específicas de Austin - que tanto valorizou a dimensão pragmática do discurso - a berlinda é reservada ao empirismo, uma surpresa para aqueles que ainda pensem o pragmatismo como uma versão filosófica do behaviorismo (2). O conceito de dados dos sentidos será questionado ali onde serve como base de apoio para inferências, alicerce de incorrigibilidade do edifício do conhecimento (Austin, 1993 [1962], pp. 140-141). Isto aproxima as idéias que Austin adianta aqui da lógica do que a vertente experimental da Psicologia chama de ‘processos descendentes’ (do sistema nervoso), bastante estudados pela Gestalt, e que os filósofos chamariam da primazia das categorias (ou da estrutura da linguagem) sobre a sensorialidade nos fenômenos de percepção (3) - ou o que Freud e Klein talvez chamassem de primazia da fantasia.
 
Que hoje a pesquisa do tema retorne à estéril materialidade dos sinais cerebrais (descendentes) que acompanham esta primazia da dimensão, discursiva, muito mais que neurológica, do sentido sobre a sensação, isso me entristece um pouco, é o que dizia.

Notas:

(1) O título é ainda uma alusão ao romance Sense and sensibility, de Jane Austen (Austin, 1993 [1962], p. 1, N. T.)
 
(2) Muito aqui poderia ser dito a respeito do que realmente orienta a concepção pragmática: uma espécie de antropocentrismo implícita em Austin, mas explicitada, por exemplo, por Rorty em seu deslocamento do valor atribuído à previsão, ao controle e à objetividade em direção a uma ética da contingência, da ironia e da solidariedade.
 
(3) É claro que Austin, pragmático que é, também problematiza, em outros momentos, a familiaridade que os filósofos pressupõem ter com as categorias em si, convenientemente reificadas. É em torno deste questionamento que se desenvolve, por exemplo, seu artigo Are there a priori concepts? (Austin, 1979 [1961], pp. 32-54).
 
Referências:
AUSTIN, J. L. [1962] Sentido e percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
____________ [1961] Philosophical papers. Oxford: Oxford University Press, 1979.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Na mídia (1)

Terminei um post sobre o narcisismo dizendo que ele estava nos olhos de quem vê. Pois hoje me deparo com uma notícia que me fez voltar ao tema. Não que o vocabulário neurocientífico não irrite um pouco - quem já está cansado desse revival do materialismo mais objetificante levante a mão -, e não que não se esteja, como de costume, descobrindo o óbvio - no caso, que a percepção é atravessada pelo significante, como diria Lacan -, mas fico feliz que o tema seja abordado, estudado e que as conclusões façam eco a outras considerações que acho interessantes.

Por exemplo, à crítica de Girard a qualquer noção de narcisismo que não seja efeito de uma atribuição por parte de um outro. O que o estudo flagra é justamente essa atribuição de valor que alça um objeto a uma plenitude da qual na verdade carece. Acontece que é também exatamente isso que fazemos quando se trata não de objetos, mas de pessoas; basta ligar a TV para percebê-lo. Aliás, que o entretenimento - que se passa por arte - está hoje, como nunca, estruturado em torno da promoção de celebridade não é segredo.

Pois bem, se admitimos isso, não é só "a maneira como vemos a arte" que "não é racional", mas a maneira como vemos (o mundo). Mas, mais que isso, ela não só não é racional, mas é, mais especificamente, política. Era, aliás, o que eu dizia mais cedo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Freud implica (2)

"O amor infantil é ilimitado; exige a posse exclusiva, não se contenta com menos do que tudo. Possui, porém, uma segunda característica; não tem, na realidade, objetivo, sendo incapaz de obter satisfação completa, e, principalmente por isso, está condenado a acabar em desapontamento e a ceder lugar a uma atitude hostil" (Freud, 1996 [1931], p. 239).

Este é de Sexualidade Feminina, de 1931.

O que dizer? Eis aí o realismo (ou pessimismo, diriam alguns) psicanalítico. A insaciabilidade estrutural das pulsões como fonte primeira do sofrimento em sua miríade de manifestações está colocada neste trecho.

Não sabemos o que queremos, mas sabemos que o queremos, seja o que for, de forma absoluta. René Girard, aliás, é um que diz isso com todas as letras. É que a pulsão insiste, e sua insatisfação, pra falar bem claro, dói. A má notícia é que ela é insaciável, e qualquer gozo é transitório.

A insaciabilidade é uma noção importante em Klein, por exemplo, que dela deriva todo tipo de mecanismo defensivo psíquico, um deles a inveja - quando, na falta insistente de satisfação a que estamos condenados, passamos, de um jeito ao mesmo tempo desesperado e esperançoso, a supô-la -- ou quase aluciná-la --, esta mesma satisfação impossível, em outrem. A insaciabilidade também orienta, acredito, a ética proposta por Lacan para a psicanálise: "não ceder em seu desejo" talvez possa ser entendido como "reconhecer a insaciabilidade e aprender a habitá-la".

No fundo, e não sei se isso é um conforto ou se é o golpe narcísico final, a insaciabilidade é uma boa notícia; pois a dor que traz, o sofrimento permanente que instaura tem um só nome: vida.