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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A medicalização da sexualidade (heterodoxa)

Foto por Francisco Javier Argel.

Circulou um hoax um tempo atrás sobre o Hetracil, droga que "curaria" a "homossexualidade". Fiquei sabendo pelo blog do Felipe Lisboa, onde rendeu, mesmo sendo paródia, uma boa reflexão. Pois bem, esbarrei depois com uma ou outra notícia que me lembrou o assunto, e que indica que, de fato, onde há fumaça, há fogo; a paródia só é efetiva, revoltando ou divertindo, por estarmos a um passo, mesmo, da era da medicalização da sexualidade. Heterodoxa, claro.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O dualismo linguagem/corpo

Foto por Lil Miss Sunshine 09.
Um último ponto de estranheza no posfácio de Butler é a forma como reedita um certo cartesianismo que toma como dado em Austin: “the body is the vehicle for the speech act” (1) (Butler in Felman, 2003 [1980], p. 119). Tal dualismo parece leva-la a considerar o ato de fala como uma verbalização (Ibid., p. 118), e ainda a eleger o corpo como a garantia de infelicidade do performativo: “the body in its sexuality guarantees the failure of the speech act” (2) (Ibid., p. 115). É uma forma estranha de ler a “doutrina da infelicidade” de Austin, já que este parte justamente de um questionamento desta dualidade corpo/linguagem. A linguagem, em Austin, é linguagem-“corpo”, linguagem-pulsão (Rudge, 1998, pp. 94-99). Evitar esta cisão, que torna possível pensar no “corpo” como “veículo” do ato, é em que Austin insiste, e é assim que tomo sua célebre conclusão:

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O pesadelo


The nightmare, 1781, de Henry Fuessli

Estivemos discutindo a interseção entre crença em monstros, sexualidade e vida infantil (aqui, por exemplo), mas eu negligenciei o elo desta relação que talvez seja o mais importante explicitar aos leitores que não são tão familiarizados com o pensamento freudiano: o caráter sexual de nossas produções ficcionais, inferência que tem seu fundamento primeiro na conclusão freudiana de 1900, segundo a qual os sonhos são realizações (disfarçadas) de desejos (proibidos).

domingo, 15 de julho de 2012

Sobre monstros e sexualidade

Départ pour le Sabbat ("Partindo para o Sabá")
Albert Joseph Pénot, 1910
Eu dizia que a noção cristã do diabo é emblemática do tipo de projeção de monstruosidade à qual nós, humanos, somos ainda bastante afeitos. Ora, já mencionamos que é justamente entre o monstruoso e o ridículo que Lanteri-Laura situa a figura do perverso; Foucault também retraça a figura que batizou de "o anormal" à figura medieval do monstro, caracterizando-o mais precisamente como um monstro cotidiano, banalizado, um monstro pálido. Será o modo como encaramos não só os crimes sexuais, mas também a própria sexualidade heterodoxa, ainda hoje, numa sociedade dita laica, sobredeterminado por esta linhagem cultural de figuras monstruosas fantasísticas?

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Pela desconstrução da heteronormatividade

Vocês já viram este vídeo? Deixou-me sem palavras. Pelo menos a lúcida fala de Jean Wyllys salva os espectadores da mais absoluta tristeza, bem como o faz, aliás, a expressão de sereno desprezo do presidente diante do destempero expiatório evangélico. Ou este desprezo é projeção minha? Bem capaz.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre a identidade e seus reflexos nos campos da sexualidade e da saúde mental

Sexta-feira eu falava nas capturas identitárias que rondam o tema da sexualidade. Em especial, como a luta política por cidadania e direitos nesse campo pode estar dando um tiro no pé ao ratificar distinções qualitativas que delimitam grupos humanos distintos com base tão somente na configuração de sua sexualidade (ou mesmo parte dela). Isso porque, no âmbito científico, estas manobras são históricas e, desde pelo menos o Século XIX, de um Krafft-Ebing, só produziram, à revelia inclusive das boas e clínicas intenções que seus proponentes pudessem ter, discursos e práticas segregacionistas e patologizantes.

A identidade sexual nasce, assim, como diagnóstico; e mesmo quando assumida e tornada bandeira na luta pela promoção de diversidade e tolerância, não deixa de fazer um desserviço ao ratificar - no movimento mesmo em que delimita seus contornos - o campo, mítico, ao qual faz contraste: a saber, a "normalidade".

Durante o fim-de-semana esbarrei com um vídeo - já antigo - que causou arrepios na espinha mesmo de quem, como eu, não leu ainda tanto Foucault quanto gostaria. Pois ilustra bem o que estamos discutindo em outro tema tradicionalmente assombrado pelas capturas identitárias patologizantes, a saúde mental. O vídeo, que vocês podem ver aqui, flagra, a meu ver, de forma especialmente clara (talvez por ser destinado a crianças) o preço que se paga - ou a trincheira que se cava - quando dependemos da reificação de identidades para colocar em ação nossas boas intenções de promoção de tolerância.

André foi um personagem criado especificamente para a conscientização sobre o autismo, e os vídeos refletem esta peculiaridade ao retratarem-no como mero suporte ou centro organizador (paradoxalmente externo) do discurso informativo de terceiros a seu respeito, ou melhor, a respeito da identidade em que o enquadram. É claro que o tema do autismo - talvez o da saúde mental como um todo, já que não é à toa que a Reforma Psiquiátrica de Basaglia se focou na promoção de contratualidade (denso, bem sei, mas podemos voltar a isto) - é particularmente vulnerável a discursos objetalizantes, na forma "ele (ou você) é isto". Mas não há como não desconfiar, diante de campanhas como esta, que estejamos passando da conscientização ao retorno, etimológico até, aos pré-conceitos.

E isto talvez seja uma vicissitude identitária. Voltando à sexualidade, confesso não ser tão versado na história da luta política LGBT(TT) quanto na história da apropriação médica das condutas sexuais, e provavelmente as questões que levanto ao movimento já foram propostas por gente de muito mais calibre - Judith Butler é uma que vem à mente -, mas se serve pra pensarmos, por exemplo, sobre o quanto de reatividade iatrogênica há na promoção do "orgulho" como condição da diversidade, ou sobre o essencialismo identitário que assombra um discurso libertário sob noções como a de "sair do armário", eis meus dois centavos.

Podemos passear aqui, de qualquer maneira, pelas raízes históricas da cientifização do discurso sobre a sexualidade heterodoxa. Talvez mesmo a partir de amanhã.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sexualidade e identidade

Outro tema que me interessa, como podem ter percebido, é a sexualidade. Particularmente as reações que suas variedades mais heterodoxas causam - reações que se fazem presentes inclusive nos que, querendo ou não, com elas flertam(os).

Outro dia li um post do Prof. Marcio Amaral sobre a noção de "atração sexual genética", criada nos anos 80 por Barbara Gonyo a partir de seu desejo pelo próprio filho, que dera para adoção quando ainda bebê e reencontrara vinte e seis anos depois, quando percebeu que o que sentia por ele não era o amor dessexualizado que se espera de relações de tal parentesco. E, se assim como o professor, sou grato tanto à coragem de sua criadora quanto à liberdade de expressão sexual que vimos conquistando, continua a me incomodar o quanto os progressos neste front são ainda dependentes de capturas identitárias e do recurso a um determinismo biológico que ameaça, desde já, sequestrar justamente nossa liberdade.

Explico: é claro que o caso é um prato cheio para qualquer um que, como eu, concorde com as considerações freudianas sobre a sexualidade, sobre o fundamento sexual do mais sublimado amor, sobre o Édipo - que aqui revela ser um complexo que pode nos acompanhar a vida inteira, já que aflige mais Barbara do que seu filho, que resistiu a seus avanços. Só que em Freud o Édipo é, em primeiro lugar, universal e, em segundo, remetido a causas simbólicas, portanto sociais. Diversamente, a genetic sexual attraction, que tem até sigla - GSA -, como manda o figurino dos manuais diagnósticos em psiquiatria, parece não só circunscrever o desejo edipiano numa síndrome, potencialmente capturando-o como exceção, ao invés de regra, mas também o remete a causas fisiológicas: a atração é genética, e seria explicada por uma (ainda) mística afinidade química derivada da semelhança cromossomial entre os dois indivíduos - quase disse sujeitos, mas aqui o termo já não cabe.

Se comecei falando na reação que o desejo heterodoxo causa naqueles que o sentem foi porque é este o mecanismo de defesa mais típico da situação: tomar o desejo como necessário, ao invés de contingente; em seguida adotá-lo como base da subjetividade, aquilo que o define nos fundamentos mais essenciais de seu ser (a captura identitária: "sou homo/bi/pedófilo/zoófilo/fetichista/etc"); e só então partir para a luta política, a meu ver já perdida a esta altura, comprometida pelas mesmas distinções qualitativas que seus próprios guerrilheiros erigiram.

Isso não é nada novo: já em 1917 Freud - sempre ele, eu sei - dava testemunho, por exemplo, em uma de suas conferências, da "reivindicação que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceção" (Freud, 1916, p.313), no que faziam eco dos cientistas que buscavam capturá-los numa classificação diagnóstica dentro da psicopatologia sexual. E, como o vienense achou por bem acrescentar à época numa nota de rodapé a seus três ensaios sobre o tema - que já contavam 10 anos desde a primeira publicação -, a qualquer tentativa deste tipo, de delimitar grupos de índole singular com base na sexualidade, a psicanálise não pode senão se opor, e aliás, "com toda a firmeza" (Freud, 1905, p. 137, nota 1).

O que instala uma pulga em minha orelha, então, na louvável busca de elaboração de seu desejo em que se engajou Barbara Gonyo é o potencial de patologização segregacionista do desejo edípico que o conceito que criou carrega. É menor, certamente, que em outras teorias da sexualidade, ainda mais considerando-se que a teleológica (e teológica?) psicopatologia sexual do século retrasado ainda vive - voltaremos a isso eventualmente -, mas ainda acredito que há melhores opções de resistência.

Por exemplo, a desconstrução destas mesmas capturas identitárias, e a devolução do ônus da explicação ao outro lado dessa moeda - a que me dediquei, aliás, durante os últimos anos; se Freud já escrevia que "no sentido psicanalítico (...) o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química” (Freud, 1905, p. 138, nota 1), acrescento a pergunta: por que todo desejo que foge disso - e até os que não fogem, dependendo de a que homem e a que mulher estamos nos referindo - nos incomoda?

Referências:

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre Psicanálise, parte III, Teoria geral das neuroses: conferência XX – A vida sexual dos seres humanos. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1905) Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.