Ler Rorty é uma coisa terapêutica; acho até que seus livros poderiam ser categorizados como de "auto-ajuda", não fosse este espaço dominado, antes, pelo fomento ao auto-engano narcisista e pela ortopedia egóica mais rasteira. Mas é que se há um ímpeto que atravessa suas ideias de uma ponta a outra, ele é, a meu ver, e em termos freudianos, o ímpeto de desbastamento de excessos superegóicos.
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domingo, 12 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
Finde didático: Richard Rorty (1)
Eu provavelmente não tenho cacife para apresentar o pensamento de Richard Rorty. Mas já o li bastante, e curto muito fazê-lo. Vou tentar, então, introduzir os aspectos de sua obra que me causaram questão, ou reverberaram por aqui, de um modo marcado, mesmo, pela parcialidade. E pior que acredito que esteja, assim, sendo ainda mais fiel a suas ideias do que se tentasse sistematizá-las.
domingo, 1 de julho de 2012
Finde didático: John Langshaw Austin (2)
Austin caracteriza o aspecto ilocucionário como o foco principal para a análise do ato de fala, e define-o como a ‘força’ de um enunciado. Distingue-o do perlocucionário da seguinte forma: enquanto a fórmula deste é ‘I did X by saying Y’ (‘fiz X através do dito Y’), o ato ilocucionário seria mais bem exemplificado por ‘I did X in saying Y’ (‘Fiz X ao dizer Y’). Nos dois casos, Y é o ato locucionário, simples ato de dizer algo.
sábado, 30 de junho de 2012
Finde didático: John Langshaw Austin (1)
Nosso caro J.L. já ronda o blog há tempos, mas não teve ainda uma apresentação mais dedicada. Um de meus filósofos favoritos, dediquemos ao bem-humorado inglês, pois, este fim-de-semana.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Finde didático: Melanie Klein (2)
As angústias persecutórias eventualmente forçarão a criança a deslocar seu interesse da mãe para o resto do mundo a seu redor, para onde, no entanto, carregará as fantasias, atualizando-as. Este é o rudimento da formação de símbolos, para o qual é necessária uma quantidade ótima de angústia: se for excessiva, instigará defesas mais radicais, como a negação do interesse pela mãe, que a partir disto não tem como ser simbolizado em outras relações.
Um exemplo deste deslocamento surge com a analidade, que introduz um novo símbolo para estas “imagos internas punitivas e terrificantes” (Segal, 1975, p. 17) – as fezes – bem como atualiza o suporte das estratégias psíquicas para lidar com elas – retenção e ejeção. A retaliação fantasiada dos objetos desloca-se da fantasmagoria oral da violência para a fantasmagoria do envenenamento. Aqui Klein localiza o “ponto de fixação da paranóia” (Klein, 1996 [1930], p. 264).
Um dos suportes mais importantes de um deslocamento deste tipo é o objeto de desejo da mãe (tipicamente o pai), à medida que a criança vai sendo emancipada do corpo materno e à medida que a mãe vai sendo percebida como faltosa. A partir desta emancipação a projeção da agressividade da criança pode dar origem à “experiência da cena primária como um acontecimento sádico e terrificante” (Segal, loc. cit.).
É quando as “figuras más” (Ibid., p. 17) se engancham nos pais como casal que elas começam a apresentar as feições do supereu edípico: é, aliás, a partir disto que se desenvolve o complexo, cujos estágios iniciais Klein localiza em um período bem anterior ao indicado por Freud, um período ainda dominado pelo sadismo oral, tão precoce quanto o “segundo trimestre do primeiro ano de vida” (Klein, 1991 [1958], p. 273).
O desejo erótico pela mãe ou pelo pai não basta para explicar o desespero com que a criança os procura: ocorre que suas pessoas reais são sempre bem menos terríveis que suas representações psíquicas sádico-orais. Por mais negligentes ou mesmo cruéis que os cuidadores reais possam ser, eles nunca poderão competir com o horror proveniente da pura pulsionalidade de morte da criança, que tinge seus representantes psíquicos. São, no mínimo, minimamente intermitentes, posto que externos. O contato com pessoas reais, quaisquer que sejam, permite que o bebê teste seu mundo interno através das evidências oriundas do mundo externo.
Ao serem internalizados, os acontecimentos, as pessoas, as coisas e as situações (...) tornam-se inacessíveis à observação e juízo preciso da criança, não podendo ser verificados pelos meios de percepção disponíveis em relação ao mundo tangível dos objetos. As dúvidas, incertezas e [angústias] que surgem como conseqüência disso agem como incentivo contínuo para que a criança pequena observe e se certifique do mundo externo dos objetos que dá origem a esse mundo interno (Id., 1996 [1940], p. 389).
Portanto, ao lado do ciúme conseqüente da ancoragem libidinal na mãe – ancoragem que Freud valorizara e que aparece em Klein também como intenção de reparar na realidade o “dano feito em fantasia” (Segal, 1975, p. 18) – há, na origem do complexo, uma espécie de anseio por um rival objetivo, mais realista. Klein (1996 [1929], p. 245) aproxima este anseio da idéia de necessidade de punição, que Freud (1996 [1924]) substituíra à noção mais nebulosa de um sentimento de culpa inconsciente, que por sua vez servira anteriormente (Id., 1996 [1916]) de hipótese para explicar a motivação para o crime. Se este é um motivo importante no estabelecimento do complexo de Édipo, segue-se que “o [supereu] não apenas precede o complexo de Édipo, mas também promove seu desenvolvimento” (Segal, loc. cit.).
Referências:
____. (1940) O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
____. (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
____. (1929) Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
sábado, 17 de dezembro de 2011
Finde didático: Melanie Klein (1)
Numa pequena pausa na leitura que estamos fazendo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, esse fim-de-semana apresentamos as idéias de Melanie Klein. Sua obra é muito rica; ao invés de tentar fornecer um panorama mais amplo (e possivelmente superficial), vou me ater, com a ajuda de Hanna Segal, sua discípula e colaboradora, aos pontos que mais me interessaram durante meus estudos, e sobre os quais me debrucei com mais cuidado nos últimos anos.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Finde didático: Girard (2)
As idéias de Girard que dialogam mais diretamente com a psicanálise - ou ao menos com a metapsicologia -talvez sejam as que se referem ao estatuto e caráter do desejo nas relações humanas. Afastando-se do senso comum que privilegia o objeto como elemento determinante do desejo, Girard denuncia a arbitrariedade de sua eleição e introduz um terceiro termo na relação sujeito-objeto ao qual dá primazia: o rival, que não meramente “deseja o mesmo objeto que o sujeito” (Girard, 1990 [1972], p. 184), mas sim designa o objeto ao sujeito como desejável simplesmente porque ele próprio o deseja.
O homem deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois é o ser que ele deseja, um ser do qual se sente privado e do qual algum outro parece-lhe ser dotado. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser (Ibid., p. 184).
O rival, pois, é um outro percebido como mais pleno, “aparentemente já dotado de um ser superior” (Ibid., p. 184), e que, no entanto, deseja. O que um outro superior em plenitude deseja só pode ser algo “sumamente desejável” (Ibid., p. 184), e assim o desejo do rival torna-se o modelo de desejo para o sujeito que não sabe exatamente o que desejar, apesar de desejar intensamente. Disto decorre que o desejo é essencialmente mimético, imitativo, e que todo modelo é desde sempre rival, todo modelo é ao mesmo tempo obstáculo. Não é o valor do objeto que provoca a rivalidade, mas é a rivalidade que cria e valoriza o objeto.
Desnecessário dizer que o desejo do próprio modelo na verdade também é mimético – o modelo também tem um modelo, por assim dizer – e que a posição de imitador (Girard a chama posição de discípulo) “é a única essencial. É por meio dela que deve ser definida a situação humana fundamental” (Ibid., p. 185).
As origens do mimetismo serão buscadas na infância, onde, segundo o autor, o caráter mimético do desejo é mais evidente e “universalmente reconhecido” (Ibid., p. 184). A criança é o discípulo por excelência e os adultos significativos os modelos-obstáculos naturais. “As crianças não sabem o que desejar e têm necessidade de que se lhes ensine” (Girard, 2004 [1982], p. 173). A demanda que a criança dirige ao adulto, pois, é a de suplência “não a uma falta que seria o desejo, mas à falta do próprio desejo” (Ibid., p. 174). (1)
Ocorre que a criança é especialmente vulnerável às conseqüências desastrosas de seu mimetismo: elegendo o adulto como modelo, encontra nele também um obstáculo intransponível. Precipitando-se com avidez em direção ao objeto do desejo que imita, encontra invariavelmente a “violência do desejo adverso” (Girard, 1990 [1972], p. 187), o "não!" do modelo-obstáculo, diante do qual é impotente.
Mais impactante e decisivo nas primeiras experiências do que o objeto nunca realmente encontrado, o terceiro termo da estrutura do desejo, o rival ou modelo-obstáculo terminará por tornar-se o elemento principal da dinâmica desejante.
Sempre não encontrando mais que obstáculos em seu caminho, ele [o desejo] os incorpora à sua visão do desejável e os faz passar para o primeiro plano; ele não pode mais desejar sem eles; ele os cultiva com avidez. É assim que ele se torna paixão odiosa do obstáculo (Girard, 2004 [1982], pp. 175-176).
Já havia esboçado aqui uma aplicação destas idéias à abordagem do futebol como fenômeno cultural, em particular acerca da violência entre torcidas, que ronda o esporte desde que me entendo por gente; talvez agora tais considerações estejam mais permeáveis.
Voltaremos a Girard, certamente, mas para saber mais sobre o autor a dica desde já é a Biblioteca René Girard, da É Realizações Editora. Bom domingo e até!
Notas:
(1) Adiantando um possível diálogo com a psicanálise, que podemos e provavelmente iremos promover eventualmente aqui, note-se a semelhança destas idéias com a noção da arbitrariedade do objeto da pulsão em Freud, bem como a de insaciabilidade do amor infantil, ambas já abordadas de passagem no blog. E, ainda, já me foi sugerido que a concepção do desejo mimético se aproxima muito das considerações de Lacan sobre a dinâmica especular durante o estádio do espelho.
Referências:
GIRARD, R. (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Finde didático: Girard (1)
Parte da densidade do blog se deve à riqueza de referências, me parece. Acho que vou aproveitar os fins-de-semana - este que se inicia cinza, chuvoso (ao menos por aqui) e com notícias pouco estimulantes intelectualmente parece particularmente adequado - para apresentar alguns dos autores que serão, ou já são, recorrentes nos posts. Pra inaugurar, René Girard.
De um ponto de vista histórico-etnológico, talvez ninguém tenha melhor sistematizado as dinâmicas expiatórias de coletividades que René Girard, pensador francês residente nos EUA desde o final da Segunda Guerra. Girard se baseou em uma ampla gama de relatos etnológicos para construir um entendimento da violência coletiva que lança nova luz sobre um extenso espectro de fenômenos, dos rituais de sacrifício mais arcaicos aos fenômenos de perseguição e vitimação mais contemporâneos.
O sistema de Girard tem raízes em uma problemática psicológica, a do desejo, entendido como essencialmente mimético (ou invejoso, diríamos): só se deseja o que um outro deseja ou possui, o que um outro aponta como desejável. Disto decorre um pano-de-fundo de irredutível rivalidade para as relações humanas que, deixada sem freios, tende a desenvolver-se exponencialmente e levar qualquer agrupamento ao extermínio mútuo através da violência recíproca e generalizada.
Este estado hipotético de absoluto caos configura-se como uma crise das diferenças: todos se tornam idênticos na violência que alternadamente sofrem e exercem, revezando-se com velocidade cada vez maior nos papéis de vítima e algoz.
Cada sociedade, tribo, coletividade que passou a existir e funcionar como tal através da superação de uma crise semelhante o fez marcada pelas idiossincrasias de sua experiência específica, mas a linha geral do processo que leva do caos à civilização é sempre a mesma: a união de todos contra um, o que transforma a violência recíproca em violência unânime. "O antagonismo de todos contra todos dá lugar à união de todos contra um único" (Girard, 1990 [1972], p. 104).
O apaziguamento e a integração que este linchamento fundador promove baseiam-se na canalização da violência de todos em direção a um único alvo, que passa a ser percebido como a fonte e causa única de toda violência, o duplo monstruoso de cada um e de todos. Sendo alvo verdadeiramente unânime, não é vingado por ninguém e, portanto, leva consigo, quando assassinado, a violência de todos. Expia, de fato, todo o ódio. "Um linchamento que reconcilia todo mundo, porque todos participam dele" (Ibid., p. 171). Isto ocorre num momento de vida ou morte para a coletividade, o momento mesmo do paroxismo da crise das diferenças, o que motiva o posterior reconhecimento dos poderes salvadores, curativos, expiatórios da vítima, responsável por “ao menos um momento de paz e silêncio” (Girard, 2000, p. 92), e abre caminho para sua divinização.
A unanimidade é efêmera; deve ser, portanto, refeita periodicamente através de repetições agora intencionais e planejadas do espontâneo e arbitrário linchamento primordial, práticas profiláticas, por assim dizer, de prevenção à violência recíproca. É onde Girard vê a origem não só do sacrifício como também de qualquer ritual e, de forma ainda mais ampla, da religião e do sagrado como um todo: "o domínio do preventivo é primordialmente o domínio religioso (...). O religioso primitivo domestica a violência, regulando-a, ordenando-a e canalizando-a para utilizá-la contra qualquer forma de violência propriamente intolerável" (Girard, 1990 [1972], pp. 32-33).
Contra o eventual retorno da crise, desenvolve-se aos poucos todo um saber fazer sacrificial, na escolha das vítimas, por exemplo, onde o autor identifica marcas vitimárias recorrentes que seguem toda uma lógica própria, assim como um corpo crescente de narrativas que trabalha, em variados graus de inconsciência, reforçando a crença em uma causa única para o mal-estar coletivo.
Girard chama estas narrativas de textos de perseguição, aqueles que veiculam representações persecutórias, "o imaginário específico de homens com sede de violência" (Girard, 2004 [1982], p. 13). Tais representações comparecem nos mitos, de forma ainda bem clara e indisfarçadamente alucinatória, através dos monstros, mas também são reconhecíveis, por exemplo, na figura do transgressor, o portador da hybris, nas tragédias gregas. A linhagem de tais representações é extensa e não é difícil encontrar seus ecos nos discursos mais contemporâneos.
De forma geral a concepção de René Girard diz respeito ao macrocosmo das coletividades e da História, e se volta especialmente para a filogênese do mecanismo expiatório e seus desdobramentos sócio-históricos. Mas também constitui um arcabouço teórico valioso e um ponto de partida privilegiado para a investigação da microcósmica psicodinâmica da expiação, tema que me é caro. Amanhã entraremos em mais detalhes sobre o pilar fundamental de sua obra - o conceito de desejo mimético.
Referências:
GIRARD, R. (2000) Um longo argumento do princípio ao fim: diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
___________ (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.
___________ (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.
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