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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Psicopatologia da opinião cotidiana: uma homenagem ao dia da proclamação da "coisa pública"


A mania configura-se durante a posição depressiva, sendo principalmente uma defesa contra a ambivalência, contra o reconhecimento de que o objeto primário, a mãe, originalmente mais ambiente do que propriamente objeto, é continente simultâneo, como protótipo do mundo externo e receptáculo de projeções, tanto dos aspectos idealizados da existência quanto dos mortíferos e ameaçadores








domingo, 18 de dezembro de 2011

Finde didático: Melanie Klein (2)


As angústias persecutórias eventualmente forçarão a criança a deslocar seu interesse da mãe para o resto do mundo a seu redor, para onde, no entanto, carregará as fantasias, atualizando-as. Este é o rudimento da formação de símbolos, para o qual é necessária uma quantidade ótima de angústia: se for excessiva, instigará defesas mais radicais, como a negação do interesse pela mãe,  que a partir disto não tem como ser simbolizado em outras relações. 

Um exemplo deste deslocamento surge com a analidade, que introduz um novo símbolo para estas “imagos internas punitivas e terrificantes” (Segal, 1975, p. 17) – as fezes – bem como atualiza o suporte das estratégias psíquicas para lidar com elas – retenção e ejeção. A retaliação fantasiada dos objetos desloca-se da fantasmagoria oral da violência para a fantasmagoria do envenenamento. Aqui Klein localiza o “ponto de fixação da paranóia” (Klein, 1996 [1930], p. 264).

Um dos suportes mais importantes de um deslocamento deste tipo é o objeto de desejo da mãe (tipicamente o pai), à medida que a criança vai sendo emancipada do corpo materno e à medida que a mãe vai sendo percebida como faltosa. A partir desta emancipação a projeção da agressividade da criança pode dar origem à “experiência da cena primária como um acontecimento sádico e terrificante” (Segal, loc. cit.).

É quando as “figuras más” (Ibid., p. 17) se engancham nos pais como casal que elas começam a apresentar as feições do supereu edípico: é, aliás, a partir disto que se desenvolve o complexo, cujos estágios iniciais Klein localiza em um período bem anterior ao indicado por Freud, um período ainda dominado pelo sadismo oral, tão precoce quanto o “segundo trimestre do primeiro ano de vida” (Klein, 1991 [1958], p. 273).

O desejo erótico pela mãe ou pelo pai não basta para explicar o desespero com que a criança os procura: ocorre que suas pessoas reais são sempre bem menos terríveis que suas representações psíquicas sádico-orais. Por mais negligentes ou mesmo cruéis que os cuidadores reais possam ser, eles nunca poderão competir com o horror proveniente da pura pulsionalidade de morte da criança, que tinge seus representantes psíquicos. São, no mínimo, minimamente intermitentes, posto que externos. O contato com pessoas reais, quaisquer que sejam, permite que o bebê teste seu mundo interno através das evidências oriundas do mundo externo. 

Ao serem internalizados, os acontecimentos, as pessoas, as coisas e as situações (...) tornam-se inacessíveis à observação e juízo preciso da criança, não podendo ser verificados pelos meios de percepção disponíveis em relação ao mundo tangível dos objetos. As dúvidas, incertezas e [angústias] que surgem como conseqüência disso agem como incentivo contínuo para que a criança pequena observe e se certifique do mundo externo dos objetos que dá origem a esse mundo interno (Id., 1996 [1940], p. 389).

Portanto, ao lado do ciúme conseqüente da ancoragem libidinal na mãe – ancoragem que Freud valorizara e que aparece em Klein também como intenção de reparar na realidade o “dano feito em fantasia” (Segal, 1975, p. 18) – há, na origem do complexo, uma espécie de anseio por um rival objetivo, mais realista. Klein (1996 [1929], p. 245) aproxima este anseio da idéia de necessidade de punição, que Freud (1996 [1924]) substituíra à noção mais nebulosa de um sentimento de culpa inconsciente, que por sua vez servira anteriormente (Id., 1996 [1916]) de hipótese para explicar a motivação para o crime. Se este é um motivo importante no estabelecimento do complexo de Édipo, segue-se que “o [supereu] não apenas precede o complexo de Édipo, mas também promove seu desenvolvimento” (Segal, loc. cit.).

Referências:
FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1916) Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico.  In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, M. (1958) Sobre o desenvolvimento do funcionamento mental. In: ____. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

____. (1940) O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos  (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1929) Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.





sábado, 17 de dezembro de 2011

Finde didático: Melanie Klein (1)



Numa pequena pausa na leitura que estamos fazendo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, esse fim-de-semana apresentamos as idéias de Melanie Klein. Sua obra é muito rica; ao invés de tentar fornecer um panorama mais amplo (e possivelmente superficial), vou me ater, com a ajuda de Hanna Segal, sua discípula e colaboradora, aos pontos que mais me interessaram durante meus estudos, e sobre os quais me debrucei com mais cuidado nos últimos anos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os dados dos sentidos

Ainda pensando sobre o atravessamento da percepção pela linguagem, lembrei que John Austin, um de meus filósofos preferidos, disse bastante a respeito. E como ele não é tão conhecido assim - mormente entre os psicólogos -, creio que vale uma breve exposição aqui.

As conferências de Austin sobre o tema são movidas por uma crítica à entidade “dados dos sentidos”, criada e mantida por uma dicotomia que a opõe às coisas materiais ou coisas no mundo. Ao conjunto destas conferências Austin dava o título ‘Sense and sensibilia’, que alude tanto aos elementos sensoriais, os supostos dados da sensação, quanto à dimensão do significado, através do polissêmico termo ‘sense’. (1) 

Se Lacan localiza a teoria fenomenológica da percepção na herança da escolástica medieval, Austin faz remontar as doutrinas que critica “pelo menos a Heráclito” (Austin, 1993 [1962], p. 7), passando ainda por Descartes e Berkeley.
"A doutrina geral, enunciada na sua generalidade, apresenta-se assim: nós nunca vemos, ou, de outro modo, percebemos (ou “sentimos”), ou, de qualquer maneira, nunca percebemos ou sentimos diretamente objetos materiais (ou coisas materiais), mas somente dados dos sentidos (ou nossas próprias idéias, impressões, sensa, percepções sensíveis, perceptos, etc.)" (Austin, 1993 [1962], pp. 8-9).

Austin frisa que tais teorias só podem nascer de um certo academicismo (Austin, 1993 [1962], p. 9), sendo os dados dos sentidos entidades puramente conceituais, criadas para serem “a resposta apropriada e exata à questão de saber o que [as pessoas] percebem” (Austin, 1993 [1962], p. 31), já que as coisas materiais são supostamente por demais enganadoras em suas mutações e disfarces para ocuparem este lugar.

Ao invés de sustentar a tese oposta (e gêmea), a que se poderia chamar de realista, segundo a qual o que se percebe são as coisas materiais (Austin, 1993 [1962], p. 10), Austin vai sublinhar a ampla gama de espécies diferentes de coisas que percebemos, irredutíveis a uma só entidade, seja “dados dos sentidos” seja “coisas materiais”:

"Podemos pensar, por exemplo, em pessoas, vozes, rios, montanhas, chamas, arco-íris, sombras, imagens na tela do cinema, gravuras em livros ou penduradas numa parede, vapores, gases – em tudo aquilo que as pessoas dizem que vêem (ou, em alguns casos, ouvem ou cheiram, i. e., “percebem”). São todas elas “coisas materiais”? Em caso contrário, quais exatamente não o são, e exatamente por quê? Não nos é concedida nenhuma resposta. O problema é que a expressão “coisa material” já está funcionando, desde o início, simplesmente como contraste para “dados dos sentidos”; não lhe atribuem neste caso, nem em qualquer outro, nenhum outro papel para desempenhar, e, além disso, não ocorreria a ninguém tentar representar como um único tipo de coisas as coisas que o homem comum diz que “percebe”" (Austin, 1993 [1962], p. 16).

Assim, os fatos da percepção são “muito mais diversos e complexos do que se tem pensado” (Austin, 1993 [1962], p. 10), e esta complexidade será demonstrada e avaliada justamente recorrendo-se à diversidade própria à linguagem, particularmente aos usos das palavras correntes, que “marcam muito mais distinções do que as vislumbradas pelos filósofos” (Austin, 1993 [1962], p. 10).

Eis esboçada uma abordagem lingüística e pragmática (pois é análise dos usos) da percepção, que se afasta tanto do empirismo quanto do que o racionalismo tem de reificador do que é, antes, abstrato e conceitual. Ambas as correntes, diz Austin, estão mais interessadas no conhecimento que na percepção, e orientam-se irresistivelmente por questões de certeza e dúvida: o interesse é “não tanto no ver, mas, sobretudo, naquilo de que não se pode duvidar” (Austin, 1993 [1962], p. 140). É curioso, neste sentido, que o experimento que citamos no post anterior tenha se estruturado em torno da questão da autenticidade (e da dúvida a seu respeito). Se eu fosse implicante insinuaria que isso é sintoma da aspiração epistemofílica da ciência - ainda tão moderna - de "purificar" a percepção; mas que esta é uma necessidade para que mantenha a suposição de saber que a pólis lhe dirige, isso é.

Enfim, nestas conferências específicas de Austin - que tanto valorizou a dimensão pragmática do discurso - a berlinda é reservada ao empirismo, uma surpresa para aqueles que ainda pensem o pragmatismo como uma versão filosófica do behaviorismo (2). O conceito de dados dos sentidos será questionado ali onde serve como base de apoio para inferências, alicerce de incorrigibilidade do edifício do conhecimento (Austin, 1993 [1962], pp. 140-141). Isto aproxima as idéias que Austin adianta aqui da lógica do que a vertente experimental da Psicologia chama de ‘processos descendentes’ (do sistema nervoso), bastante estudados pela Gestalt, e que os filósofos chamariam da primazia das categorias (ou da estrutura da linguagem) sobre a sensorialidade nos fenômenos de percepção (3) - ou o que Freud e Klein talvez chamassem de primazia da fantasia.
 
Que hoje a pesquisa do tema retorne à estéril materialidade dos sinais cerebrais (descendentes) que acompanham esta primazia da dimensão, discursiva, muito mais que neurológica, do sentido sobre a sensação, isso me entristece um pouco, é o que dizia.

Notas:

(1) O título é ainda uma alusão ao romance Sense and sensibility, de Jane Austen (Austin, 1993 [1962], p. 1, N. T.)
 
(2) Muito aqui poderia ser dito a respeito do que realmente orienta a concepção pragmática: uma espécie de antropocentrismo implícita em Austin, mas explicitada, por exemplo, por Rorty em seu deslocamento do valor atribuído à previsão, ao controle e à objetividade em direção a uma ética da contingência, da ironia e da solidariedade.
 
(3) É claro que Austin, pragmático que é, também problematiza, em outros momentos, a familiaridade que os filósofos pressupõem ter com as categorias em si, convenientemente reificadas. É em torno deste questionamento que se desenvolve, por exemplo, seu artigo Are there a priori concepts? (Austin, 1979 [1961], pp. 32-54).
 
Referências:
AUSTIN, J. L. [1962] Sentido e percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
____________ [1961] Philosophical papers. Oxford: Oxford University Press, 1979.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Freud implica (6)

"as fantasias são produtos de períodos posteriores e são projetadas para o passado, desde o que era então o presente até épocas mais remotas da infância (...). À pergunta: “O que aconteceu nos primórdios da infância?”, a resposta é “nada”." (Freud, 1996 [1899], p. 327).

Este é de uma das cartas que Freud escreveu a seu correspondente Wilhelm Fliess (carta 101, de 1899).

Bem no início de seu percurso teórico, Freud acreditava que as neuroses eram causadas por traumas sexuais na infância. Aqueles que apresentavam sintomas na adultez teriam invariavelmente sofrido algum tipo de assédio sexual quando crianças. É uma idéia que, hoje, alguns ainda defendem.

Mas já antes da virada para o Século XX, o vienense mudou de idéia, por uma série de motivos, um dos quais o reconhecimento de traços neuróticos em si próprio, aliado à decepcionante constatação de que nada de muito dramático havia ocorrido em sua vida sexual infantil.

Esta citação retrata a reorientação de seu estudo, do trauma para a fantasia. Ela se situa entre dois grandes marcos: foi escrita depois deste abandono de sua teoria da sedução e, mais importante, logo antes (ou durante, aliás) a redação de "A interpretação dos sonhos", livro considerado por muitos, eu incluso, como o marco teórico inaugural da Psicanálise. Foi quando deixou de se preocupar com causas factuais para os distúrbios psíquicos -- ou seja, quando se permitiu algum afastamento da causalidade científica e sua doutrina da verificabilidade -- que Freud pôde mergulhar de fato na lógica própria ao psiquismo, que é fantasística e inconsciente.

Numa situação analítica, pois, desde o Século XIX -- faz tempo! --, o que está em jogo não é o passado, ao contrário daquilo em que ainda insistem os livros didáticos, mas sim as fantasias atuais sobre o passado, que -- e só por isso são nosso foco -- produzem efeitos no presente, a todo momento.

Isto, enfim, define o que entendo como Psicanálise, este recorte -- solipsista, alguns diriam -- que orientou de cabo a rabo a obra de autores como, por exemplo, Melanie Klein. Está muito mais próximo, a meu ver, da análise literária do que das atividades "paramédicas" ou "psicoadministrativas" às quais nós, psicólogos, somos convocados atualmente.

Freud implica (2)

"O amor infantil é ilimitado; exige a posse exclusiva, não se contenta com menos do que tudo. Possui, porém, uma segunda característica; não tem, na realidade, objetivo, sendo incapaz de obter satisfação completa, e, principalmente por isso, está condenado a acabar em desapontamento e a ceder lugar a uma atitude hostil" (Freud, 1996 [1931], p. 239).

Este é de Sexualidade Feminina, de 1931.

O que dizer? Eis aí o realismo (ou pessimismo, diriam alguns) psicanalítico. A insaciabilidade estrutural das pulsões como fonte primeira do sofrimento em sua miríade de manifestações está colocada neste trecho.

Não sabemos o que queremos, mas sabemos que o queremos, seja o que for, de forma absoluta. René Girard, aliás, é um que diz isso com todas as letras. É que a pulsão insiste, e sua insatisfação, pra falar bem claro, dói. A má notícia é que ela é insaciável, e qualquer gozo é transitório.

A insaciabilidade é uma noção importante em Klein, por exemplo, que dela deriva todo tipo de mecanismo defensivo psíquico, um deles a inveja - quando, na falta insistente de satisfação a que estamos condenados, passamos, de um jeito ao mesmo tempo desesperado e esperançoso, a supô-la -- ou quase aluciná-la --, esta mesma satisfação impossível, em outrem. A insaciabilidade também orienta, acredito, a ética proposta por Lacan para a psicanálise: "não ceder em seu desejo" talvez possa ser entendido como "reconhecer a insaciabilidade e aprender a habitá-la".

No fundo, e não sei se isso é um conforto ou se é o golpe narcísico final, a insaciabilidade é uma boa notícia; pois a dor que traz, o sofrimento permanente que instaura tem um só nome: vida.