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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Masoquismo moral e criminalidade

Vida y destino, por Jesús Rodríguez.

Se houve um conceito freudiano com o qual esbarrei recorrentemente durante o estudo dos temas que mais me atraem foi o de masoquismo moral. Tenho uma vaga noção de que poderia ser decisivo numa abordagem psicanalítica dos fenômenos que Girard chama de expiatórios, por exemplo, e isso tanto para a clínica do sujeito quanto a da cultura. De que se trata, então?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Figurações da angústia: o diabo (2)


Os poderes sobre-humanos do diabo correspondem à idealização que a criança faz da potência sexual de seu pai, um dos quatro elementos que Jones (1971) distingue como constituindo a encruzilhada fálico-edípica que sua figura personifica; é pai e filho, em um eixo, e admirado e odiado, em outro. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Figurações da angústia: o diabo (1)

Já falamos algo aqui sobre o significado psicossexual da crença em bruxas. Eis que o livro de Ernest Jones em que me baseei (On the nightmare - "Sobre o pesadelo") aborda também o investimento de outros monstros; e um dos mais interessantes é o diabo. O diabo é a figuração de uma angústia essencialmente fálica. É a personagem que melhor representa os “aspectos inconscientes do complexo Filho-Pai” (Jones, 1971, p. 156), a alternância entre a imitação do pai e a hostilidade contra ele.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Finde didático: Melanie Klein (2)


As angústias persecutórias eventualmente forçarão a criança a deslocar seu interesse da mãe para o resto do mundo a seu redor, para onde, no entanto, carregará as fantasias, atualizando-as. Este é o rudimento da formação de símbolos, para o qual é necessária uma quantidade ótima de angústia: se for excessiva, instigará defesas mais radicais, como a negação do interesse pela mãe,  que a partir disto não tem como ser simbolizado em outras relações. 

Um exemplo deste deslocamento surge com a analidade, que introduz um novo símbolo para estas “imagos internas punitivas e terrificantes” (Segal, 1975, p. 17) – as fezes – bem como atualiza o suporte das estratégias psíquicas para lidar com elas – retenção e ejeção. A retaliação fantasiada dos objetos desloca-se da fantasmagoria oral da violência para a fantasmagoria do envenenamento. Aqui Klein localiza o “ponto de fixação da paranóia” (Klein, 1996 [1930], p. 264).

Um dos suportes mais importantes de um deslocamento deste tipo é o objeto de desejo da mãe (tipicamente o pai), à medida que a criança vai sendo emancipada do corpo materno e à medida que a mãe vai sendo percebida como faltosa. A partir desta emancipação a projeção da agressividade da criança pode dar origem à “experiência da cena primária como um acontecimento sádico e terrificante” (Segal, loc. cit.).

É quando as “figuras más” (Ibid., p. 17) se engancham nos pais como casal que elas começam a apresentar as feições do supereu edípico: é, aliás, a partir disto que se desenvolve o complexo, cujos estágios iniciais Klein localiza em um período bem anterior ao indicado por Freud, um período ainda dominado pelo sadismo oral, tão precoce quanto o “segundo trimestre do primeiro ano de vida” (Klein, 1991 [1958], p. 273).

O desejo erótico pela mãe ou pelo pai não basta para explicar o desespero com que a criança os procura: ocorre que suas pessoas reais são sempre bem menos terríveis que suas representações psíquicas sádico-orais. Por mais negligentes ou mesmo cruéis que os cuidadores reais possam ser, eles nunca poderão competir com o horror proveniente da pura pulsionalidade de morte da criança, que tinge seus representantes psíquicos. São, no mínimo, minimamente intermitentes, posto que externos. O contato com pessoas reais, quaisquer que sejam, permite que o bebê teste seu mundo interno através das evidências oriundas do mundo externo. 

Ao serem internalizados, os acontecimentos, as pessoas, as coisas e as situações (...) tornam-se inacessíveis à observação e juízo preciso da criança, não podendo ser verificados pelos meios de percepção disponíveis em relação ao mundo tangível dos objetos. As dúvidas, incertezas e [angústias] que surgem como conseqüência disso agem como incentivo contínuo para que a criança pequena observe e se certifique do mundo externo dos objetos que dá origem a esse mundo interno (Id., 1996 [1940], p. 389).

Portanto, ao lado do ciúme conseqüente da ancoragem libidinal na mãe – ancoragem que Freud valorizara e que aparece em Klein também como intenção de reparar na realidade o “dano feito em fantasia” (Segal, 1975, p. 18) – há, na origem do complexo, uma espécie de anseio por um rival objetivo, mais realista. Klein (1996 [1929], p. 245) aproxima este anseio da idéia de necessidade de punição, que Freud (1996 [1924]) substituíra à noção mais nebulosa de um sentimento de culpa inconsciente, que por sua vez servira anteriormente (Id., 1996 [1916]) de hipótese para explicar a motivação para o crime. Se este é um motivo importante no estabelecimento do complexo de Édipo, segue-se que “o [supereu] não apenas precede o complexo de Édipo, mas também promove seu desenvolvimento” (Segal, loc. cit.).

Referências:
FREUD, S. (1924) O problema econômico do masoquismo. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1916) Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico.  In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, M. (1958) Sobre o desenvolvimento do funcionamento mental. In: ____. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

____. (1940) O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1930) A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos  (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1929) Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo. In: ____. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

SEGAL, H. Introdução à obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.





sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sexualidade e identidade

Outro tema que me interessa, como podem ter percebido, é a sexualidade. Particularmente as reações que suas variedades mais heterodoxas causam - reações que se fazem presentes inclusive nos que, querendo ou não, com elas flertam(os).

Outro dia li um post do Prof. Marcio Amaral sobre a noção de "atração sexual genética", criada nos anos 80 por Barbara Gonyo a partir de seu desejo pelo próprio filho, que dera para adoção quando ainda bebê e reencontrara vinte e seis anos depois, quando percebeu que o que sentia por ele não era o amor dessexualizado que se espera de relações de tal parentesco. E, se assim como o professor, sou grato tanto à coragem de sua criadora quanto à liberdade de expressão sexual que vimos conquistando, continua a me incomodar o quanto os progressos neste front são ainda dependentes de capturas identitárias e do recurso a um determinismo biológico que ameaça, desde já, sequestrar justamente nossa liberdade.

Explico: é claro que o caso é um prato cheio para qualquer um que, como eu, concorde com as considerações freudianas sobre a sexualidade, sobre o fundamento sexual do mais sublimado amor, sobre o Édipo - que aqui revela ser um complexo que pode nos acompanhar a vida inteira, já que aflige mais Barbara do que seu filho, que resistiu a seus avanços. Só que em Freud o Édipo é, em primeiro lugar, universal e, em segundo, remetido a causas simbólicas, portanto sociais. Diversamente, a genetic sexual attraction, que tem até sigla - GSA -, como manda o figurino dos manuais diagnósticos em psiquiatria, parece não só circunscrever o desejo edipiano numa síndrome, potencialmente capturando-o como exceção, ao invés de regra, mas também o remete a causas fisiológicas: a atração é genética, e seria explicada por uma (ainda) mística afinidade química derivada da semelhança cromossomial entre os dois indivíduos - quase disse sujeitos, mas aqui o termo já não cabe.

Se comecei falando na reação que o desejo heterodoxo causa naqueles que o sentem foi porque é este o mecanismo de defesa mais típico da situação: tomar o desejo como necessário, ao invés de contingente; em seguida adotá-lo como base da subjetividade, aquilo que o define nos fundamentos mais essenciais de seu ser (a captura identitária: "sou homo/bi/pedófilo/zoófilo/fetichista/etc"); e só então partir para a luta política, a meu ver já perdida a esta altura, comprometida pelas mesmas distinções qualitativas que seus próprios guerrilheiros erigiram.

Isso não é nada novo: já em 1917 Freud - sempre ele, eu sei - dava testemunho, por exemplo, em uma de suas conferências, da "reivindicação que fazem os homossexuais ou invertidos de serem uma exceção" (Freud, 1916, p.313), no que faziam eco dos cientistas que buscavam capturá-los numa classificação diagnóstica dentro da psicopatologia sexual. E, como o vienense achou por bem acrescentar à época numa nota de rodapé a seus três ensaios sobre o tema - que já contavam 10 anos desde a primeira publicação -, a qualquer tentativa deste tipo, de delimitar grupos de índole singular com base na sexualidade, a psicanálise não pode senão se opor, e aliás, "com toda a firmeza" (Freud, 1905, p. 137, nota 1).

O que instala uma pulga em minha orelha, então, na louvável busca de elaboração de seu desejo em que se engajou Barbara Gonyo é o potencial de patologização segregacionista do desejo edípico que o conceito que criou carrega. É menor, certamente, que em outras teorias da sexualidade, ainda mais considerando-se que a teleológica (e teológica?) psicopatologia sexual do século retrasado ainda vive - voltaremos a isso eventualmente -, mas ainda acredito que há melhores opções de resistência.

Por exemplo, a desconstrução destas mesmas capturas identitárias, e a devolução do ônus da explicação ao outro lado dessa moeda - a que me dediquei, aliás, durante os últimos anos; se Freud já escrevia que "no sentido psicanalítico (...) o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é também um problema que exige esclarecimento, e não uma evidência indiscutível que se possa atribuir a uma atração de base química” (Freud, 1905, p. 138, nota 1), acrescento a pergunta: por que todo desejo que foge disso - e até os que não fogem, dependendo de a que homem e a que mulher estamos nos referindo - nos incomoda?

Referências:

FREUD, S. (1917) Conferências introdutórias sobre Psicanálise, parte III, Teoria geral das neuroses: conferência XX – A vida sexual dos seres humanos. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

____. (1905) Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. In: ____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, v. VII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.