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sexta-feira, 20 de julho de 2012

O pesadelo


The nightmare, 1781, de Henry Fuessli

Estivemos discutindo a interseção entre crença em monstros, sexualidade e vida infantil (aqui, por exemplo), mas eu negligenciei o elo desta relação que talvez seja o mais importante explicitar aos leitores que não são tão familiarizados com o pensamento freudiano: o caráter sexual de nossas produções ficcionais, inferência que tem seu fundamento primeiro na conclusão freudiana de 1900, segundo a qual os sonhos são realizações (disfarçadas) de desejos (proibidos).

domingo, 15 de julho de 2012

Sobre monstros e sexualidade

Départ pour le Sabbat ("Partindo para o Sabá")
Albert Joseph Pénot, 1910
Eu dizia que a noção cristã do diabo é emblemática do tipo de projeção de monstruosidade à qual nós, humanos, somos ainda bastante afeitos. Ora, já mencionamos que é justamente entre o monstruoso e o ridículo que Lanteri-Laura situa a figura do perverso; Foucault também retraça a figura que batizou de "o anormal" à figura medieval do monstro, caracterizando-o mais precisamente como um monstro cotidiano, banalizado, um monstro pálido. Será o modo como encaramos não só os crimes sexuais, mas também a própria sexualidade heterodoxa, ainda hoje, numa sociedade dita laica, sobredeterminado por esta linhagem cultural de figuras monstruosas fantasísticas?

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Figurações da angústia: o diabo (2)


Os poderes sobre-humanos do diabo correspondem à idealização que a criança faz da potência sexual de seu pai, um dos quatro elementos que Jones (1971) distingue como constituindo a encruzilhada fálico-edípica que sua figura personifica; é pai e filho, em um eixo, e admirado e odiado, em outro. 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Figurações da angústia: o diabo (1)

Já falamos algo aqui sobre o significado psicossexual da crença em bruxas. Eis que o livro de Ernest Jones em que me baseei (On the nightmare - "Sobre o pesadelo") aborda também o investimento de outros monstros; e um dos mais interessantes é o diabo. O diabo é a figuração de uma angústia essencialmente fálica. É a personagem que melhor representa os “aspectos inconscientes do complexo Filho-Pai” (Jones, 1971, p. 156), a alternância entre a imitação do pai e a hostilidade contra ele.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O significado psicossexual da crença medieval em bruxas


Eis uma atividade que me é cara: pra ser denso, a análise das figuras ambíguas a que se atribui a causa da angústia de castração. Ou, pra ser nítido, o estudo psicanalítico dos monstros. 

Um dos terrenos privilegiados para levá-la a cabo parece ser a experiência do pesadelo. É o que sugere a leitura de On the nightmare, de Ernest Jones, onde o autor investiga a relação entre pesadelos e investimentos incestuosos, indicando a influência deste tipo de sonho de angústia na formação de toda sorte de superstição medieval, as crenças em demônios, vampiros, lobisomens e bruxas; na configuração, enfim, de toda espécie de personagem monstruosa nas fantasias.

As bruxas me parecem especialmente interessantes para uma (psic)análise, em primeiro lugar porque exerciam seus poderes mágicos quase exclusivamente sobre a potência sexual e a fertilidade. Mas também porque são a imago da mãe esculpida em carrara, em toda a ambiguidade que permeia seus fundamentos. Senão, vejamos:

Tinham a capacidade de causar esterilidade e abortos, e o faziam através de venenos; sua conotação materna hostil não pode revelar-se mais claramente do que em sua habilidade em “tornar o leite azedo” (Jones, 1971, p. 193). O aspecto oral-sádico está presente em sua predileção por devorar bebês recém-nascidos. E nisso, aquém da castração, parecem apontar, nas palavras de Rudge, para a ameaça de apagamento do sujeito, de morte psíquica que o incesto convoca por estar moldado como desejo materno de “reintegrar seu produto” (Rudge, 2005, p. 87).

Mas as bruxas tinham também, como a mãe enquanto primeiro objeto amoroso da criança, o poder de despertar o amor e a potência fálica, freqüentemente através, mais uma vez, de líquidos ingeridos, as poções. Além disso, podiam conferir a si próprias e a outros o poder de voar, quando esfregavam óleos no corpo e num cajado ou vassoura. Jones não chega a mencionar a analogia com o efeito excitante exercido pelos cuidados maternos primários de higiene, mas fornece os elementos cruciais para esta interpretação: que a significação fálica das numerosas formas de “cajados mágicos” (Jones, op. cit., p. 206) é evidente; e que “o fenômeno da ereção é em ambos os sexos a semente da própria concepção do voar” (Ibid., p. 204).

Esta ambigüidade que a bruxa encarna, mãe a um só tempo sedutora e mortífera, refletia-se em sua aparência, que era ora a de uma mulher feia, velha e odiosa, ora a de uma jovem linda e encantadora (Ibid., p. 197). Mas em qualquer forma as bruxas tinham o curioso poder de “predizer eventos futuros e ver coisas que aconteciam à distância” (Ibid., p. 198), o que parece atestar a força fundadora que o discurso e o desejo da mãe exercem sobre o psiquismo do bebê.

Referências:
JONES, E. On the nightmare. Nova Iorque: Liveright Publishing Corp., 1971.
RUDGE, A. M. Jones e Lacan: pesadelos, demônios e angústia. In: Revista Pulsional, ano XVII, n. 181, p. 80-87. São Paulo: Escuta, março/2005. Trimestral.