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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre o ciúme "competitivo"

Jealousy ("ciúme"), por Olivier Thereaux
Em um texto de 1922, chamado Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, Freud distingue três tipos de ciúme: o competitivo, o projetado e o delirante. Sobre o primeiro ele escreve que "não há muito a dizer, do ponto de vista analítico", mas talvez hoje em dia, depois que suas ideias, mais bombásticas, sobre os outros dois tipos já deixaram de ser novidade e estão razoavelmente assimiladas culturalmente, valha a pena retomarmos em algum detalhe o campo do ciúme que Freud chama de "normal".

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na captura dos Friedmans


Se há um documentário que esboça abordar a psicodinâmica do processo de acusação e a ancoragem da figura do criminoso sexual na fantasia, é Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki. 

O filme reconstitui, utilizando-se de registros em vídeo da época e da coleta atual de depoimentos, a estória do julgamento e prisão de Arnold Friedman e seu filho caçula, acusados de pedofilia. A interceptação pela polícia de revistas de tal conteúdo endereçadas pelo correio ao Sr. Friedman serve como ponto de partida e fornece a única prova material de um processo que adquirirá um escopo e uma visibilidade impressionantes através da proliferação de depoimentos de crianças – supostamente vítimas de assédio durante as aulas ministradas por Arnold – e cobertura midiática intensa. Acompanha-se, passo a passo, a dimensão que o julgamento vai tomando, a mobilização de um número cada vez maior de pessoas em torno da família Friedman, desde os pais de crianças supostamente molestadas até os telespectadores dos noticiários nacionais, e a força que tal mobilização vai aplicando sobre as estratégias e decisões judiciais. Momentos exemplares ocorrem quando os acusados, em desespero, declaram-se culpados de assédio, por insistência de seus próprios advogados, como manobra de barganha em relação à pena. A forma indisfarçadamente diretiva pela qual são colhidos os depoimentos das crianças e as incoerências e contradições que estes  evidenciam deixam bem claro o quanto de bom senso estavam todos os envolvidos dispostos a sacrificar, conscientemente ou não, em nome das moções pulsionais que impeliam todo o processo. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Atribuição de agência (3)

(continuado dos posts anteriores...)

"Tu és aquele..."
Em consonância com um dos exemplos de Lacan, diríamos que a atribuição de agência mais fundamental tem a forma “tu és aquele que age”, com o verbo agir na impessoal terceira pessoa, já que este momento é prévio à “personação do sujeito a que se endereça” (Lacan, 2002 [1955-56], p. 316). Refiro-me à distinção que o autor faz entre os enunciados "tu és aquele que me seguirá" e "tu és aquele que me seguirás", que em Francês são homófonos.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Atribuição de agência (1)

A partir do pensamento de René Girard pode ser delineada, por trás de suas várias roupagens, determinada tendência humana de exteriorização de causalidade – um aspecto da méconnaissance – que parece estar na base dos fenômenos expiatórios e que implica em que a identificação do agente em uma dada situação seja um trabalho psíquico: o agente não é dado, mas construído, negociado. Tentarei aqui delinear a noção desta tendência – à qual gostaria de me referir pela expressão atribuição de agência – em diálogo com Lacan e o filósofo da linguagem John Langshaw Austin.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Sobre a méconnaissance

Um outro link entre Austin e a psicanálise exigirá que compreendamos o conceito girardiano de méconnaissance, termo que foi traduzido como ‘desconhecimento’, mas que remete mais exatamente a uma má compreensão, uma ciência parcial e distorcida. O objeto da méconnaissance em última instância é o que Girard não cansou de estudar: o mecanismo expiatório como um todo - o complexo movimento de eleição e vitimação unânime de um modelo-obstáculo em comum - mas ela atua sobre seus elementos específicos de modo distinto.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Finde didático: Girard (2)

As idéias de Girard que dialogam mais diretamente com a psicanálise - ou ao menos com a metapsicologia -talvez sejam as que se referem ao estatuto e caráter do desejo nas relações humanas. Afastando-se do senso comum que privilegia o objeto como elemento determinante do desejo, Girard denuncia a arbitrariedade de sua eleição e introduz um terceiro termo na relação sujeito-objeto ao qual dá primazia: o rival, que não meramente “deseja o mesmo objeto que o sujeito” (Girard, 1990 [1972], p. 184), mas sim designa o objeto ao sujeito como desejável simplesmente porque ele próprio o deseja.

O homem deseja intensamente, mas ele não sabe exatamente o quê, pois é o ser que ele deseja, um ser do qual se sente privado e do qual algum outro parece-lhe ser dotado. O sujeito espera que este outro diga-lhe o que é necessário desejar para adquirir este ser (Ibid., p. 184).

O rival, pois, é um outro percebido como mais pleno, “aparentemente já dotado de um ser superior” (Ibid., p. 184), e que, no entanto, deseja. O que um outro superior em plenitude deseja só pode ser algo “sumamente desejável” (Ibid., p. 184), e assim o desejo do rival torna-se o modelo de desejo para o sujeito que não sabe exatamente o que desejar, apesar de desejar intensamente. Disto decorre que o desejo é essencialmente mimético, imitativo, e que todo modelo é desde sempre rival, todo modelo é ao mesmo tempo obstáculo. Não é o valor do objeto que provoca a rivalidade, mas é a rivalidade que cria e valoriza o objeto.

Desnecessário dizer que o desejo do próprio modelo na verdade também é mimético – o modelo também tem um modelo, por assim dizer – e que a posição de imitador (Girard a chama posição de discípulo) “é a única essencial. É por meio dela que deve ser definida a situação humana fundamental” (Ibid., p. 185).

As origens do mimetismo serão buscadas na infância, onde, segundo o autor, o caráter mimético do desejo é mais evidente e “universalmente reconhecido” (Ibid., p. 184). A criança é o discípulo por excelência e os adultos significativos os modelos-obstáculos naturais. “As crianças não sabem o que desejar e têm necessidade de que se lhes ensine” (Girard, 2004 [1982], p. 173). A demanda que a criança dirige ao adulto, pois, é a de suplência “não a uma falta que seria o desejo, mas à falta do próprio desejo” (Ibid., p. 174). (1)

Ocorre que a criança é especialmente vulnerável às conseqüências desastrosas de seu mimetismo: elegendo o adulto como modelo, encontra nele também um obstáculo intransponível. Precipitando-se com avidez em direção ao objeto do desejo que imita, encontra invariavelmente a “violência do desejo adverso” (Girard, 1990 [1972], p. 187), o "não!" do modelo-obstáculo, diante do qual é impotente. 

Mais impactante e decisivo nas primeiras experiências do que o objeto nunca realmente encontrado, o terceiro termo da estrutura do desejo, o rival ou modelo-obstáculo terminará por tornar-se o elemento principal da dinâmica desejante.

Sempre não encontrando mais que obstáculos em seu caminho, ele [o desejo] os incorpora à sua visão do desejável e os faz passar para o primeiro plano; ele não pode mais desejar sem eles; ele os cultiva com avidez. É assim que ele se torna paixão odiosa do obstáculo (Girard, 2004 [1982], pp. 175-176).
Já havia esboçado aqui uma aplicação destas idéias à abordagem do futebol como fenômeno cultural, em particular acerca da violência entre torcidas, que ronda o esporte desde que me entendo por gente; talvez agora tais considerações estejam mais permeáveis.

Voltaremos a Girard, certamente, mas para saber mais sobre o autor a dica desde já é a Biblioteca René Girard, da É Realizações Editora. Bom domingo e até!

Notas:
(1) Adiantando um possível diálogo com a psicanálise, que podemos e provavelmente iremos promover eventualmente aqui, note-se a semelhança destas idéias com a noção da arbitrariedade do objeto da pulsão em Freud, bem como a de insaciabilidade do amor infantil, ambas já abordadas de passagem no blog. E, ainda, já me foi sugerido que a concepção do desejo mimético se aproxima muito das considerações de Lacan sobre a dinâmica especular durante o estádio do espelho.

Referências:
GIRARD, R. (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Finde didático: Girard (1)

Parte da densidade do blog se deve à riqueza de referências, me parece. Acho que vou aproveitar os fins-de-semana - este que se inicia cinza, chuvoso (ao menos por aqui) e com notícias pouco estimulantes intelectualmente parece particularmente adequado - para apresentar alguns dos autores que serão, ou já são, recorrentes nos posts. Pra inaugurar, René Girard.

De um ponto de vista histórico-etnológico, talvez ninguém tenha melhor sistematizado as dinâmicas expiatórias de coletividades que René Girard, pensador francês residente nos EUA desde o final da Segunda Guerra. Girard se baseou em uma ampla gama de relatos etnológicos para construir um entendimento da violência coletiva que lança nova luz sobre um extenso espectro de fenômenos, dos rituais de sacrifício mais arcaicos aos fenômenos de perseguição e vitimação mais contemporâneos.

O sistema de Girard tem raízes em uma problemática psicológica, a do desejo, entendido como essencialmente mimético (ou invejoso, diríamos): só se deseja o que um outro deseja ou possui, o que um outro aponta como desejável. Disto decorre um pano-de-fundo de irredutível rivalidade para as relações humanas que, deixada sem freios, tende a desenvolver-se exponencialmente e levar qualquer agrupamento ao extermínio mútuo através da violência recíproca e generalizada.

Este estado hipotético de absoluto caos configura-se como uma crise das diferenças: todos se tornam idênticos na violência que alternadamente sofrem e exercem, revezando-se com velocidade cada vez maior nos papéis de vítima e algoz.

Cada sociedade, tribo, coletividade que passou a existir e funcionar como tal através da superação de uma crise semelhante o fez marcada pelas idiossincrasias de sua experiência específica, mas a linha geral do processo que leva do caos à civilização é sempre a mesma: a união de todos contra um, o que transforma a violência recíproca em violência unânime. "O antagonismo de todos contra todos dá lugar à união de todos contra um único" (Girard, 1990 [1972], p. 104).

O apaziguamento e a integração que este linchamento fundador promove baseiam-se na canalização da violência de todos em direção a um único alvo, que passa a ser percebido como a fonte e causa única de toda violência, o duplo monstruoso de cada um e de todos. Sendo alvo verdadeiramente unânime, não é vingado por ninguém e, portanto, leva consigo, quando assassinado, a violência de todos. Expia, de fato, todo o ódio. "Um linchamento que reconcilia todo mundo, porque todos participam dele" (Ibid., p. 171). Isto ocorre num momento de vida ou morte para a coletividade, o momento mesmo do paroxismo da crise das diferenças, o que motiva o posterior reconhecimento dos poderes salvadores, curativos, expiatórios da vítima, responsável por “ao menos um momento de paz e silêncio” (Girard, 2000, p. 92), e abre caminho para sua divinização.

A unanimidade é efêmera; deve ser, portanto, refeita periodicamente através de repetições agora intencionais e planejadas do espontâneo e arbitrário linchamento primordial, práticas profiláticas, por assim dizer, de prevenção à violência recíproca. É onde Girard vê a origem não só do sacrifício como também de qualquer ritual e, de forma ainda mais ampla, da religião e do sagrado como um todo: "o domínio do preventivo é primordialmente o domínio religioso (...). O religioso primitivo domestica a violência, regulando-a, ordenando-a e canalizando-a para utilizá-la contra qualquer forma de violência propriamente intolerável" (Girard, 1990 [1972], pp. 32-33).

Contra o eventual retorno da crise, desenvolve-se aos poucos todo um saber fazer sacrificial, na escolha das vítimas, por exemplo, onde o autor identifica marcas vitimárias recorrentes que seguem toda uma lógica própria, assim como um corpo crescente de narrativas que trabalha, em variados graus de inconsciência, reforçando a crença em uma causa única para o mal-estar coletivo.

Girard chama estas narrativas de textos de perseguição, aqueles que veiculam representações persecutórias, "o imaginário específico de homens com sede de violência" (Girard, 2004 [1982], p. 13). Tais representações comparecem nos mitos, de forma ainda bem clara e indisfarçadamente alucinatória, através dos monstros, mas também são reconhecíveis, por exemplo, na figura do transgressor, o portador da hybris, nas tragédias gregas. A linhagem de tais representações é extensa e não é difícil encontrar seus ecos nos discursos mais contemporâneos.

De forma geral a concepção de René Girard diz respeito ao macrocosmo das coletividades e da História, e se volta especialmente para a filogênese do mecanismo expiatório e seus desdobramentos sócio-históricos. Mas também constitui um arcabouço teórico valioso e um ponto de partida privilegiado para a investigação da microcósmica psicodinâmica da expiação, tema que me é caro. Amanhã entraremos em mais detalhes sobre o pilar fundamental de sua obra - o conceito de desejo mimético.

Referências:
GIRARD, R. (2000) Um longo argumento do princípio ao fim: diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
___________ (1982) O bode expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
___________ (1972) A violência e o sagrado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Na mídia (1)

Terminei um post sobre o narcisismo dizendo que ele estava nos olhos de quem vê. Pois hoje me deparo com uma notícia que me fez voltar ao tema. Não que o vocabulário neurocientífico não irrite um pouco - quem já está cansado desse revival do materialismo mais objetificante levante a mão -, e não que não se esteja, como de costume, descobrindo o óbvio - no caso, que a percepção é atravessada pelo significante, como diria Lacan -, mas fico feliz que o tema seja abordado, estudado e que as conclusões façam eco a outras considerações que acho interessantes.

Por exemplo, à crítica de Girard a qualquer noção de narcisismo que não seja efeito de uma atribuição por parte de um outro. O que o estudo flagra é justamente essa atribuição de valor que alça um objeto a uma plenitude da qual na verdade carece. Acontece que é também exatamente isso que fazemos quando se trata não de objetos, mas de pessoas; basta ligar a TV para percebê-lo. Aliás, que o entretenimento - que se passa por arte - está hoje, como nunca, estruturado em torno da promoção de celebridade não é segredo.

Pois bem, se admitimos isso, não é só "a maneira como vemos a arte" que "não é racional", mas a maneira como vemos (o mundo). Mas, mais que isso, ela não só não é racional, mas é, mais especificamente, política. Era, aliás, o que eu dizia mais cedo.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Girard e o campeonato brasileiro

O que os jogos e as competições esportivas deixam entrever de forma notável é que o objeto de desejo facilmente se transfigura em objeto de disputa, no que não faz mais que revelar sua essencial arbitrariedade: são retrato do momento em que tal objeto se torna absolutamente abstrato, quando a rivalidade não tem outra meta que não a glória de triunfar sobre o rival, em igual medida um obstáculo... e um modelo.

“O objeto inteiramente criado pelo desejo mimético é um falso objeto. O prestígio e a honra são exemplos.” (Girard, 2000, p. 105). Esta é a essência do “objeto de disputa supremo e inexistente que os homens roubam sem cessar uns dos outros” (Girard, 1990 [1972], p. 192). No limite, o objeto é “o signo vazio de uma vitória temporária, de uma vantagem imediatamente colocada em questão” (Ibid., p. 193) tanto pelo vencedor – que, descobrindo-se ainda não pleno, logo colocará em ação a mimese novamente, procurando um novo rival sobre o qual triunfar na esperança de absorver a plenitude que a ele atribui imaginariamente – quanto pelo vencido – que, se ainda não o tiver feito, elegerá imediatamente o vencedor como modelo e obstáculo. De fato, as rivalidades duradouras tendem a se configurar como a eleição mútua de cada um dos adversários como modelo e obstáculo do outro: “assim, o imitador torna-se, ao mesmo tempo, modelo de seu modelo; imitador de seu imitador” (Girard, 2000, p. 87).

É bom lembrar, no entanto, que a arbitrariedade e o caráter vazio do objeto só se apresentam como tais de uma perspectiva externa. Para os envolvidos, o que se disputa é o próprio ser, “sua alma, seu sopro vital” (Girard, 1990 [1972], p. 194). Disto decorre a violência das conseqüências da mimese como estrutura do desejo, violência da qual as disputas esportivas, por exemplo, não passam de formas ritualizadas e mitigadas...

...na maioria das vezes. E, de qualquer forma, parabéns ao Corínthians.

A analogia da vila húngara

Freud em dois momentos (Os chistes e sua relação com o inconsciente e O ego e o id) se refere a uma anedota que diz mais ou menos o seguinte:

"Há uma história cômica (...) de uma vila húngara onde o ferreiro fora condenado à pena capital. O burgomestre resolveu, entretanto, que um alfaiate e não o ferreiro devia ser enforcado, pois havia dois alfaiates na cidade mas não havia um segundo ferreiro e o crime devia ser expiado" (Freud, 1996 [1905], p. 192).

O efeito cômico da estória deriva do fato deste tipo de lógica ser o mais vigente inconscientemente, apesar de precisar ser racionalizado ou de outra forma disfarçado para vigorar "a céu aberto". Pra ser técnico, trata-se do mecanismo do deslocamento, que é o fundamento da transferência.

Mas, enfim, a analogia é entre a vila húngara e o aparelho psíquico. "A punição tem de ser exigida, mesmo que ela não incida sobre o culpado", diz o vienense em 1923. Nossas paixões, aí incluído o ódio, são mais determinantes de nosso comportamento do que os objetos que supostamente as "despertam", como se diz. O objeto, de fato, é negociável, e é por isso que tanto se fala na Psicanálise em *escolha* de objeto, ou escolha objetal.

Tenho a impressão que se teoriza mais sobre o deslocamento quando ele estabelece uma transferência positiva, amorosa: não há nada mais freudiano do que identificar nos amores atuais de um sujeito traços dos adultos significativos de sua infância. Mas o deslocamento é também, a meu ver, o conceito analítico mais importante para uma clínica da cultura que se debruce sobre a violência, e é justamente aí que a analogia incide.

Pois o que está em jogo na vila húngara é exatamente o que René Girard, pensador da cultura e da violência, chamou de substituição sacrificial: as vítimas da cultura, os sacrificados, os que sofrem punições exemplares, os, enfim, bodes expiatórios, são sempre, no fundo, qualquer um de nós, porque são, cada um deles, partes de todos nós.

E quando a indignação virtuosa cresce em coro em torno de um alfaiate, por mais culpado que seja, é interessante nos perguntarmos se não o estamos fazendo para poupar o ferreiro que nos habita.

Freud implica (2)

"O amor infantil é ilimitado; exige a posse exclusiva, não se contenta com menos do que tudo. Possui, porém, uma segunda característica; não tem, na realidade, objetivo, sendo incapaz de obter satisfação completa, e, principalmente por isso, está condenado a acabar em desapontamento e a ceder lugar a uma atitude hostil" (Freud, 1996 [1931], p. 239).

Este é de Sexualidade Feminina, de 1931.

O que dizer? Eis aí o realismo (ou pessimismo, diriam alguns) psicanalítico. A insaciabilidade estrutural das pulsões como fonte primeira do sofrimento em sua miríade de manifestações está colocada neste trecho.

Não sabemos o que queremos, mas sabemos que o queremos, seja o que for, de forma absoluta. René Girard, aliás, é um que diz isso com todas as letras. É que a pulsão insiste, e sua insatisfação, pra falar bem claro, dói. A má notícia é que ela é insaciável, e qualquer gozo é transitório.

A insaciabilidade é uma noção importante em Klein, por exemplo, que dela deriva todo tipo de mecanismo defensivo psíquico, um deles a inveja - quando, na falta insistente de satisfação a que estamos condenados, passamos, de um jeito ao mesmo tempo desesperado e esperançoso, a supô-la -- ou quase aluciná-la --, esta mesma satisfação impossível, em outrem. A insaciabilidade também orienta, acredito, a ética proposta por Lacan para a psicanálise: "não ceder em seu desejo" talvez possa ser entendido como "reconhecer a insaciabilidade e aprender a habitá-la".

No fundo, e não sei se isso é um conforto ou se é o golpe narcísico final, a insaciabilidade é uma boa notícia; pois a dor que traz, o sofrimento permanente que instaura tem um só nome: vida.