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quarta-feira, 14 de março de 2012

Freud e a "perversão": os Três ensaios (4)


Estamos de volta, e com novo visual, cortesia da talentosa Nicole Soares. Obrigado, Nicole!

Falávamos da "democratização" freudiana dos mecanismos que subjazem às práticas sexuais mais caricatas. Pois bem, ela comparece de forma particularmente nítida à seção seguinte dos Três ensaios, intitulada “fixações de alvos sexuais provisórios” (Freud, 1996 [1905], p. 147), onde Freud se debruça sobre a escopofilia, o exibicionismo, o sadismo e o masoquismo. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Freud implica (5)

"As provas da psicanálise demonstram que quase toda relação emocional íntima entre duas pessoas que perdura por certo tempo – casamento, amizade, as relações entre pais e filhos – contém um sedimento de sentimentos de aversão e hostilidade, o qual só escapa à percepção em conseqüência da repressão" (Freud, 1996 [1921], p. 112).

Este é de "Psicologia de grupo e a análise do ego", de 1921.

Esse trecho sintetiza e universaliza o que Freud chama de ambivalência. Parece uma coisa muito simples, e talvez seja, mas é espantoso o quão prontos estamos a esquecer dela no dia-a-dia.

Eu lembro de um analisando meu que tinha uma relação particularmente ambivalente com a mãe. Não cansava de se queixar dela, criticá-la etc. e no entanto a tinha convidado, em determinado momento, a morar com ele em sua casa, por motivos cujo sentido prático era quase inexistente. Um dia ele se tocou, sem pouco espanto e confusão, mas também com algum alívio, que não só a odiava, mas também a amava profundamente. E que isso, vejam só, era algo possível de acontecer.

A noção de ambivalência permeia a obra inteira de Freud. Nossos líderes, ele diz, são tão admirados quanto temidos quanto invejados. Nossos filhos são tão investidos -- até idealizados -- quanto decepcionantes e frustrantes. Aliás, raro é o sentimento mesmo que não carrega em si a ambivalência: temer também é legitimar (senão desejar sem querer); invejar é tanto idealizar quanto odiar; rara é a paixão que não mobiliza moções destrutivas, por sublimadas que sejam.

A meu ver a ambivalência fala pela tolerância. E é preciso que seja reconhecida para que produza efeitos neste sentido. Como diria Winnicott, na metade do século passado, é mais enriquecedor sobreviver às hostilidades do que desmenti-las ou suprimi-las com outras hostilidades; isto é "bom o suficiente".