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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O dualismo linguagem/corpo

Foto por Lil Miss Sunshine 09.
Um último ponto de estranheza no posfácio de Butler é a forma como reedita um certo cartesianismo que toma como dado em Austin: “the body is the vehicle for the speech act” (1) (Butler in Felman, 2003 [1980], p. 119). Tal dualismo parece leva-la a considerar o ato de fala como uma verbalização (Ibid., p. 118), e ainda a eleger o corpo como a garantia de infelicidade do performativo: “the body in its sexuality guarantees the failure of the speech act” (2) (Ibid., p. 115). É uma forma estranha de ler a “doutrina da infelicidade” de Austin, já que este parte justamente de um questionamento desta dualidade corpo/linguagem. A linguagem, em Austin, é linguagem-“corpo”, linguagem-pulsão (Rudge, 1998, pp. 94-99). Evitar esta cisão, que torna possível pensar no “corpo” como “veículo” do ato, é em que Austin insiste, e é assim que tomo sua célebre conclusão:

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Freud e a "perversão": os Três ensaios (2)


Continuamos nossa leitura dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade a partir da seção em que Freud passa da análise da bissexualidade à da radical contingência de alvos e objetos da pulsão sexual, seção esta dedicada a “animais e pessoas sexualmente imaturas como objetos sexuais” (Freud, 1996 [1905], p. 140).  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Freud implica (2)

"O amor infantil é ilimitado; exige a posse exclusiva, não se contenta com menos do que tudo. Possui, porém, uma segunda característica; não tem, na realidade, objetivo, sendo incapaz de obter satisfação completa, e, principalmente por isso, está condenado a acabar em desapontamento e a ceder lugar a uma atitude hostil" (Freud, 1996 [1931], p. 239).

Este é de Sexualidade Feminina, de 1931.

O que dizer? Eis aí o realismo (ou pessimismo, diriam alguns) psicanalítico. A insaciabilidade estrutural das pulsões como fonte primeira do sofrimento em sua miríade de manifestações está colocada neste trecho.

Não sabemos o que queremos, mas sabemos que o queremos, seja o que for, de forma absoluta. René Girard, aliás, é um que diz isso com todas as letras. É que a pulsão insiste, e sua insatisfação, pra falar bem claro, dói. A má notícia é que ela é insaciável, e qualquer gozo é transitório.

A insaciabilidade é uma noção importante em Klein, por exemplo, que dela deriva todo tipo de mecanismo defensivo psíquico, um deles a inveja - quando, na falta insistente de satisfação a que estamos condenados, passamos, de um jeito ao mesmo tempo desesperado e esperançoso, a supô-la -- ou quase aluciná-la --, esta mesma satisfação impossível, em outrem. A insaciabilidade também orienta, acredito, a ética proposta por Lacan para a psicanálise: "não ceder em seu desejo" talvez possa ser entendido como "reconhecer a insaciabilidade e aprender a habitá-la".

No fundo, e não sei se isso é um conforto ou se é o golpe narcísico final, a insaciabilidade é uma boa notícia; pois a dor que traz, o sofrimento permanente que instaura tem um só nome: vida.

Freud implica (1)

Coleciono mentalmente, sem querer, trechos da obra de Freud. Alguns chego a decorar, também sem fazer qualquer esforço neste sentido. O que me causam, o que implicam? Vejamos.

"A hipótese mais simples e mais indicada sobre a natureza da pulsão seria que, em si mesma, ela não possui qualidade alguma, devendo apenas ser considerada como uma medida da exigência de trabalho feita à vida anímica" (Freud, 1996 [1905], p. 159)

Este é dos Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905).

O que está em jogo aqui é a pulsão, o impulso, conceito que não por acaso foi traduzido por 'instinto' na mais famosa tradução das obras do velho Sigmund, a de James Strachey para o inglês. Não por acaso porque a pulsão nasce mesmo deste campo semântico dominado, numa terminologia científica, pelo conceito de instinto.

Só que é com esta frase, justamente, que Freud diferencia pulsão e instinto: se a primeira não tem qualidade alguma que seja pré-determinada, o instinto é, ao contrário, inato. É um arco reflexo, um pacote de comportamento em resposta a um estímulo que segue uma programação, podemos dizer genética?

Bom, a pulsão é outra coisa então. Ela exige um trabalho psíquico do sujeito para se configurar, para escolher seu objeto e seu percurso até este objeto que se supõe que a satisfará.

E daí? Daí várias coisas. Pra começar, daí que o impulso sexual não vem formatado de nascença, e a atração natural de um humano por outro do sexo oposto não é algo dado, mas algo que é construído (a duras penas às vezes) ao longo da vida.

Mas outra coisa que me ocorre é que assim Freud localiza a Psicanálise num campo diferente do das ciências biológicas, e diferente do das Psicologias mais científicas: se a pulsão é um de nossos objetos mais importantes, se não o único, o fato dela se configurar e se transformar através de um trabalho que é anímico, psíquico, atravessado, pois, necessariamente pela linguagem, nos aponta o que será nosso campo privilegiado de intervenção enquanto analistas, o do discurso; a fala, a escuta, a interpretação, a recordação, a elaboração.