Ler Rorty é uma coisa terapêutica; acho até que seus livros poderiam ser categorizados como de "auto-ajuda", não fosse este espaço dominado, antes, pelo fomento ao auto-engano narcisista e pela ortopedia egóica mais rasteira. Mas é que se há um ímpeto que atravessa suas ideias de uma ponta a outra, ele é, a meu ver, e em termos freudianos, o ímpeto de desbastamento de excessos superegóicos.
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domingo, 12 de agosto de 2012
sábado, 11 de agosto de 2012
Finde didático: Richard Rorty (1)
Eu provavelmente não tenho cacife para apresentar o pensamento de Richard Rorty. Mas já o li bastante, e curto muito fazê-lo. Vou tentar, então, introduzir os aspectos de sua obra que me causaram questão, ou reverberaram por aqui, de um modo marcado, mesmo, pela parcialidade. E pior que acredito que esteja, assim, sendo ainda mais fiel a suas ideias do que se tentasse sistematizá-las.
sábado, 28 de julho de 2012
O coringa
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| Foto por Andressa Sipariba. |
Estou curioso a respeito de James E. Holmes. Para quem não sabe, o rapaz que abriu fogo contra uma platéia de cinema recentemente no Colorado, EUA. Mas talvez minha curiosidade não transite pelos caminhos mais comuns, e isto me motivou a escrever algo a respeito. Pois se a necessidade de explicações nos é comum, e bastante justificável, o caminho que damos à curiosidade pode produzir explicações mais, ou menos, desumanizadoras. Mais que isso, explicações mais, ou menos, produtivas.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Sobre o ciúme "competitivo"
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| Jealousy ("ciúme"), por Olivier Thereaux |
Em um texto de 1922, chamado Alguns mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e no homossexualismo, Freud distingue três tipos de ciúme: o competitivo, o projetado e o delirante. Sobre o primeiro ele escreve que "não há muito a dizer, do ponto de vista analítico", mas talvez hoje em dia, depois que suas ideias, mais bombásticas, sobre os outros dois tipos já deixaram de ser novidade e estão razoavelmente assimiladas culturalmente, valha a pena retomarmos em algum detalhe o campo do ciúme que Freud chama de "normal".
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Os dados dos sentidos
Ainda pensando sobre o atravessamento da percepção pela linguagem, lembrei que John Austin, um de meus filósofos preferidos, disse bastante a respeito. E como ele não é tão conhecido assim - mormente entre os psicólogos -, creio que vale uma breve exposição aqui.
As conferências de Austin sobre o tema são movidas por uma crítica à entidade “dados dos sentidos”, criada e mantida por uma dicotomia que a opõe às coisas materiais ou coisas no mundo. Ao conjunto destas conferências Austin dava o título ‘Sense and sensibilia’, que alude tanto aos elementos sensoriais, os supostos dados da sensação, quanto à dimensão do significado, através do polissêmico termo ‘sense’. (1)
As conferências de Austin sobre o tema são movidas por uma crítica à entidade “dados dos sentidos”, criada e mantida por uma dicotomia que a opõe às coisas materiais ou coisas no mundo. Ao conjunto destas conferências Austin dava o título ‘Sense and sensibilia’, que alude tanto aos elementos sensoriais, os supostos dados da sensação, quanto à dimensão do significado, através do polissêmico termo ‘sense’. (1)
Se Lacan localiza a teoria fenomenológica da percepção na herança da escolástica medieval, Austin faz remontar as doutrinas que critica “pelo menos a Heráclito” (Austin, 1993 [1962], p. 7), passando ainda por Descartes e Berkeley.
"A doutrina geral, enunciada na sua generalidade, apresenta-se assim: nós nunca vemos, ou, de outro modo, percebemos (ou “sentimos”), ou, de qualquer maneira, nunca percebemos ou sentimos diretamente objetos materiais (ou coisas materiais), mas somente dados dos sentidos (ou nossas próprias idéias, impressões, sensa, percepções sensíveis, perceptos, etc.)" (Austin, 1993 [1962], pp. 8-9).
Austin frisa que tais teorias só podem nascer de um certo academicismo (Austin, 1993 [1962], p. 9), sendo os dados dos sentidos entidades puramente conceituais, criadas para serem “a resposta apropriada e exata à questão de saber o que [as pessoas] percebem” (Austin, 1993 [1962], p. 31), já que as coisas materiais são supostamente por demais enganadoras em suas mutações e disfarces para ocuparem este lugar.
Ao invés de sustentar a tese oposta (e gêmea), a que se poderia chamar de realista, segundo a qual o que se percebe são as coisas materiais (Austin, 1993 [1962], p. 10), Austin vai sublinhar a ampla gama de espécies diferentes de coisas que percebemos, irredutíveis a uma só entidade, seja “dados dos sentidos” seja “coisas materiais”:
"Podemos pensar, por exemplo, em pessoas, vozes, rios, montanhas, chamas, arco-íris, sombras, imagens na tela do cinema, gravuras em livros ou penduradas numa parede, vapores, gases – em tudo aquilo que as pessoas dizem que vêem (ou, em alguns casos, ouvem ou cheiram, i. e., “percebem”). São todas elas “coisas materiais”? Em caso contrário, quais exatamente não o são, e exatamente por quê? Não nos é concedida nenhuma resposta. O problema é que a expressão “coisa material” já está funcionando, desde o início, simplesmente como contraste para “dados dos sentidos”; não lhe atribuem neste caso, nem em qualquer outro, nenhum outro papel para desempenhar, e, além disso, não ocorreria a ninguém tentar representar como um único tipo de coisas as coisas que o homem comum diz que “percebe”" (Austin, 1993 [1962], p. 16).
Assim, os fatos da percepção são “muito mais diversos e complexos do que se tem pensado” (Austin, 1993 [1962], p. 10), e esta complexidade será demonstrada e avaliada justamente recorrendo-se à diversidade própria à linguagem, particularmente aos usos das palavras correntes, que “marcam muito mais distinções do que as vislumbradas pelos filósofos” (Austin, 1993 [1962], p. 10).
Eis esboçada uma abordagem lingüística e pragmática (pois é análise dos usos) da percepção, que se afasta tanto do empirismo quanto do que o racionalismo tem de reificador do que é, antes, abstrato e conceitual. Ambas as correntes, diz Austin, estão mais interessadas no conhecimento que na percepção, e orientam-se irresistivelmente por questões de certeza e dúvida: o interesse é “não tanto no ver, mas, sobretudo, naquilo de que não se pode duvidar” (Austin, 1993 [1962], p. 140). É curioso, neste sentido, que o experimento que citamos no post anterior tenha se estruturado em torno da questão da autenticidade (e da dúvida a seu respeito). Se eu fosse implicante insinuaria que isso é sintoma da aspiração epistemofílica da ciência - ainda tão moderna - de "purificar" a percepção; mas que esta é uma necessidade para que mantenha a suposição de saber que a pólis lhe dirige, isso é.
Enfim, nestas conferências específicas de Austin - que tanto valorizou a dimensão pragmática do discurso - a berlinda é reservada ao empirismo, uma surpresa para aqueles que ainda pensem o pragmatismo como uma versão filosófica do behaviorismo (2). O conceito de dados dos sentidos será questionado ali onde serve como base de apoio para inferências, alicerce de incorrigibilidade do edifício do conhecimento (Austin, 1993 [1962], pp. 140-141). Isto aproxima as idéias que Austin adianta aqui da lógica do que a vertente experimental da Psicologia chama de ‘processos descendentes’ (do sistema nervoso), bastante estudados pela Gestalt, e que os filósofos chamariam da primazia das categorias (ou da estrutura da linguagem) sobre a sensorialidade nos fenômenos de percepção (3) - ou o que Freud e Klein talvez chamassem de primazia da fantasia.
Que hoje a pesquisa do tema retorne à estéril materialidade dos sinais cerebrais (descendentes) que acompanham esta primazia da dimensão, discursiva, muito mais que neurológica, do sentido sobre a sensação, isso me entristece um pouco, é o que dizia.
Notas:
(1) O título é ainda uma alusão ao romance Sense and sensibility, de Jane Austen (Austin, 1993 [1962], p. 1, N. T.)
(2) Muito aqui poderia ser dito a respeito do que realmente orienta a concepção pragmática: uma espécie de antropocentrismo implícita em Austin, mas explicitada, por exemplo, por Rorty em seu deslocamento do valor atribuído à previsão, ao controle e à objetividade em direção a uma ética da contingência, da ironia e da solidariedade.
(3) É claro que Austin, pragmático que é, também problematiza, em outros momentos, a familiaridade que os filósofos pressupõem ter com as categorias em si, convenientemente reificadas. É em torno deste questionamento que se desenvolve, por exemplo, seu artigo Are there a priori concepts? (Austin, 1979 [1961], pp. 32-54).
Referências:
AUSTIN, J. L.
[1962] Sentido e percepção. São Paulo: Martins Fontes,
1993.
____________
[1961] Philosophical papers.
Oxford: Oxford University Press, 1979.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Psicologia e subjetividade: da epistemologia à ética
O campo da Psicologia nasce de uma tensão inerente ao paradigma
dualista da modernidade: a cisão entre mente e corpo, que de certa forma
reflete a cisão entre sujeito e objeto, se legitima o objeto
psicológico, que é, paradoxalmente, o sujeito, o faz pela via do
negativo, pois é a mente que não é transparente a si própria, e nem tão
autônoma quanto se gostaria que fosse, ou seja, o sujeito que insiste em
ser, simultaneamente, objeto, o que vai ser apropriado pela nova
ciência.
Isto se evidencia desde os experimentos de
Helmholtz sobre o tempo de reação, que buscavam relações constantes
entre estímulos e respostas motoras, expectativa calcada na objetividade
da fisiologia. Já aí os resultados variavam tanto, não só de indivíduo a indivíduo, mas também no mesmo indivíduo em diferentes momentos, que Helmholtz abandonou a pesquisa. Mas foi este "fracasso" que abriu o
nicho onde em seguida floresceria a psicofísica e, finalmente, a
Psicologia wundtiana.
A Psicologia ocupa esta lacuna
inicialmente no intuito de obturá-la; esta é sua via de ingresso no rol
das ciências. O espaço entre o estímulo e a resposta será então suturado
por equações logarítmicas, como a de Fechner, ou povoado de variáveis
definidas operacionalmente, medidas e estatisticamente tratadas. Os
primeiros métodos do conhecimento psicológico, por exemplo, a
introspecção, que exigia árduo treinamento, revelam ainda a consonância
entre a nova ciência e os ideais epistemológicos da modernidade, ambos
em busca de um sujeito pleno, autônomo e transparente a si próprio.
Mas este espaço aberto pelas
limitações do projeto epistemológico moderno, que na filosofia foi
ocupado, por exemplo, por Nietzsche e pelos pragmatistas americanos,
entre outros, na Psicologia o foi mais decisivamente por Freud. E mais decisivamente
justamente por não tentar tamponá-lo, este espaço, mas sim, pelo
contrário, da familiaridade com ele passar a questionar a própria noção
de que possa haver um saber ou uma epistemologia que não sejam
irremediavelmente marcados pela pulsionalidade do sujeito do
conhecimento.
E é justamente deste questionamento que
deriva a própria possibilidade da(s) Psicologia(s) se constituir como
campo heterogêneo, povoado pelas mais diversas teorias, métodos e
posições epistemológicas (ou mesmo pós-epistemológicas). É ainda, sendo
parte de um movimento filosófico mais amplo - que tem expoentes em
Heidegger, Foucault, Derrida, Deleuze, Habermas e Rorty, entre outros -
responsável por um certo deslocamento das pretensões epistemofílicas em
direção à reflexão ética.
Pois o que a pulsionalidade do
homem de ciência indica é também, como fazem estes autores, que teorias e
linguagens não são meros instrumentos de representação de uma realidade
estanque, e sim dispositivos que a criam, e constituem nossa
experiência ao descrevê-la. A pulsão de saber, como dizia Freud, é
componente da pulsão de dominação.
Neste sentido é que a
discussão ética toma precedência como preocupação filosófica
contemporânea: a que tipo de práticas, de mundo, de subjetividade,
enfim, levam as teorias e escolas às quais nos filiamos? De onde tais
vertentes se desenvolveram, que espaço ocupam e a que demanda
sociocultural respondem?
O quanto elas contribuem, enfim, na reificação dos mecanismos de poder? E
o quanto ainda se apegam à esperança de suturar a modernidade,
positivar o humano ou disciplinar os corpos?
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