Mostrando postagens com marcador A. Rudge. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A. Rudge. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O pesadelo


The nightmare, 1781, de Henry Fuessli

Estivemos discutindo a interseção entre crença em monstros, sexualidade e vida infantil (aqui, por exemplo), mas eu negligenciei o elo desta relação que talvez seja o mais importante explicitar aos leitores que não são tão familiarizados com o pensamento freudiano: o caráter sexual de nossas produções ficcionais, inferência que tem seu fundamento primeiro na conclusão freudiana de 1900, segundo a qual os sonhos são realizações (disfarçadas) de desejos (proibidos).

terça-feira, 26 de junho de 2012

Muito além da “perversão”: um estudo transversal da Verleugnung - parte 3


(continuado do post anterior...)

O fetichismo e o texto freudiano a ele dedicado tornaram-se o principal ponto de ancoragem de grande parte do discurso psicanalítico dedicado ao campo da perversão. Valas (1990), por exemplo, escreve:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O significado psicossexual da crença medieval em bruxas


Eis uma atividade que me é cara: pra ser denso, a análise das figuras ambíguas a que se atribui a causa da angústia de castração. Ou, pra ser nítido, o estudo psicanalítico dos monstros. 

Um dos terrenos privilegiados para levá-la a cabo parece ser a experiência do pesadelo. É o que sugere a leitura de On the nightmare, de Ernest Jones, onde o autor investiga a relação entre pesadelos e investimentos incestuosos, indicando a influência deste tipo de sonho de angústia na formação de toda sorte de superstição medieval, as crenças em demônios, vampiros, lobisomens e bruxas; na configuração, enfim, de toda espécie de personagem monstruosa nas fantasias.

As bruxas me parecem especialmente interessantes para uma (psic)análise, em primeiro lugar porque exerciam seus poderes mágicos quase exclusivamente sobre a potência sexual e a fertilidade. Mas também porque são a imago da mãe esculpida em carrara, em toda a ambiguidade que permeia seus fundamentos. Senão, vejamos:

Tinham a capacidade de causar esterilidade e abortos, e o faziam através de venenos; sua conotação materna hostil não pode revelar-se mais claramente do que em sua habilidade em “tornar o leite azedo” (Jones, 1971, p. 193). O aspecto oral-sádico está presente em sua predileção por devorar bebês recém-nascidos. E nisso, aquém da castração, parecem apontar, nas palavras de Rudge, para a ameaça de apagamento do sujeito, de morte psíquica que o incesto convoca por estar moldado como desejo materno de “reintegrar seu produto” (Rudge, 2005, p. 87).

Mas as bruxas tinham também, como a mãe enquanto primeiro objeto amoroso da criança, o poder de despertar o amor e a potência fálica, freqüentemente através, mais uma vez, de líquidos ingeridos, as poções. Além disso, podiam conferir a si próprias e a outros o poder de voar, quando esfregavam óleos no corpo e num cajado ou vassoura. Jones não chega a mencionar a analogia com o efeito excitante exercido pelos cuidados maternos primários de higiene, mas fornece os elementos cruciais para esta interpretação: que a significação fálica das numerosas formas de “cajados mágicos” (Jones, op. cit., p. 206) é evidente; e que “o fenômeno da ereção é em ambos os sexos a semente da própria concepção do voar” (Ibid., p. 204).

Esta ambigüidade que a bruxa encarna, mãe a um só tempo sedutora e mortífera, refletia-se em sua aparência, que era ora a de uma mulher feia, velha e odiosa, ora a de uma jovem linda e encantadora (Ibid., p. 197). Mas em qualquer forma as bruxas tinham o curioso poder de “predizer eventos futuros e ver coisas que aconteciam à distância” (Ibid., p. 198), o que parece atestar a força fundadora que o discurso e o desejo da mãe exercem sobre o psiquismo do bebê.

Referências:
JONES, E. On the nightmare. Nova Iorque: Liveright Publishing Corp., 1971.
RUDGE, A. M. Jones e Lacan: pesadelos, demônios e angústia. In: Revista Pulsional, ano XVII, n. 181, p. 80-87. São Paulo: Escuta, março/2005. Trimestral.