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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Psicopatologia da opinião cotidiana: uma homenagem ao dia da proclamação da "coisa pública"


A mania configura-se durante a posição depressiva, sendo principalmente uma defesa contra a ambivalência, contra o reconhecimento de que o objeto primário, a mãe, originalmente mais ambiente do que propriamente objeto, é continente simultâneo, como protótipo do mundo externo e receptáculo de projeções, tanto dos aspectos idealizados da existência quanto dos mortíferos e ameaçadores








terça-feira, 10 de julho de 2012

Na captura dos Friedmans


Se há um documentário que esboça abordar a psicodinâmica do processo de acusação e a ancoragem da figura do criminoso sexual na fantasia, é Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki. 

O filme reconstitui, utilizando-se de registros em vídeo da época e da coleta atual de depoimentos, a estória do julgamento e prisão de Arnold Friedman e seu filho caçula, acusados de pedofilia. A interceptação pela polícia de revistas de tal conteúdo endereçadas pelo correio ao Sr. Friedman serve como ponto de partida e fornece a única prova material de um processo que adquirirá um escopo e uma visibilidade impressionantes através da proliferação de depoimentos de crianças – supostamente vítimas de assédio durante as aulas ministradas por Arnold – e cobertura midiática intensa. Acompanha-se, passo a passo, a dimensão que o julgamento vai tomando, a mobilização de um número cada vez maior de pessoas em torno da família Friedman, desde os pais de crianças supostamente molestadas até os telespectadores dos noticiários nacionais, e a força que tal mobilização vai aplicando sobre as estratégias e decisões judiciais. Momentos exemplares ocorrem quando os acusados, em desespero, declaram-se culpados de assédio, por insistência de seus próprios advogados, como manobra de barganha em relação à pena. A forma indisfarçadamente diretiva pela qual são colhidos os depoimentos das crianças e as incoerências e contradições que estes  evidenciam deixam bem claro o quanto de bom senso estavam todos os envolvidos dispostos a sacrificar, conscientemente ou não, em nome das moções pulsionais que impeliam todo o processo. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Atribuição de agência (3)

(continuado dos posts anteriores...)

"Tu és aquele..."
Em consonância com um dos exemplos de Lacan, diríamos que a atribuição de agência mais fundamental tem a forma “tu és aquele que age”, com o verbo agir na impessoal terceira pessoa, já que este momento é prévio à “personação do sujeito a que se endereça” (Lacan, 2002 [1955-56], p. 316). Refiro-me à distinção que o autor faz entre os enunciados "tu és aquele que me seguirá" e "tu és aquele que me seguirás", que em Francês são homófonos.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Atribuição de agência (1)

A partir do pensamento de René Girard pode ser delineada, por trás de suas várias roupagens, determinada tendência humana de exteriorização de causalidade – um aspecto da méconnaissance – que parece estar na base dos fenômenos expiatórios e que implica em que a identificação do agente em uma dada situação seja um trabalho psíquico: o agente não é dado, mas construído, negociado. Tentarei aqui delinear a noção desta tendência – à qual gostaria de me referir pela expressão atribuição de agência – em diálogo com Lacan e o filósofo da linguagem John Langshaw Austin.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A analogia da vila húngara

Freud em dois momentos (Os chistes e sua relação com o inconsciente e O ego e o id) se refere a uma anedota que diz mais ou menos o seguinte:

"Há uma história cômica (...) de uma vila húngara onde o ferreiro fora condenado à pena capital. O burgomestre resolveu, entretanto, que um alfaiate e não o ferreiro devia ser enforcado, pois havia dois alfaiates na cidade mas não havia um segundo ferreiro e o crime devia ser expiado" (Freud, 1996 [1905], p. 192).

O efeito cômico da estória deriva do fato deste tipo de lógica ser o mais vigente inconscientemente, apesar de precisar ser racionalizado ou de outra forma disfarçado para vigorar "a céu aberto". Pra ser técnico, trata-se do mecanismo do deslocamento, que é o fundamento da transferência.

Mas, enfim, a analogia é entre a vila húngara e o aparelho psíquico. "A punição tem de ser exigida, mesmo que ela não incida sobre o culpado", diz o vienense em 1923. Nossas paixões, aí incluído o ódio, são mais determinantes de nosso comportamento do que os objetos que supostamente as "despertam", como se diz. O objeto, de fato, é negociável, e é por isso que tanto se fala na Psicanálise em *escolha* de objeto, ou escolha objetal.

Tenho a impressão que se teoriza mais sobre o deslocamento quando ele estabelece uma transferência positiva, amorosa: não há nada mais freudiano do que identificar nos amores atuais de um sujeito traços dos adultos significativos de sua infância. Mas o deslocamento é também, a meu ver, o conceito analítico mais importante para uma clínica da cultura que se debruce sobre a violência, e é justamente aí que a analogia incide.

Pois o que está em jogo na vila húngara é exatamente o que René Girard, pensador da cultura e da violência, chamou de substituição sacrificial: as vítimas da cultura, os sacrificados, os que sofrem punições exemplares, os, enfim, bodes expiatórios, são sempre, no fundo, qualquer um de nós, porque são, cada um deles, partes de todos nós.

E quando a indignação virtuosa cresce em coro em torno de um alfaiate, por mais culpado que seja, é interessante nos perguntarmos se não o estamos fazendo para poupar o ferreiro que nos habita.