A mania configura-se durante a posição depressiva, sendo principalmente uma defesa contra a ambivalência, contra o reconhecimento de que o objeto primário, a mãe, originalmente mais ambiente do que propriamente objeto, é continente simultâneo, como protótipo do mundo externo e receptáculo de projeções, tanto dos aspectos idealizados da existência quanto dos mortíferos e ameaçadores.
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quinta-feira, 15 de novembro de 2012
domingo, 15 de julho de 2012
Sobre monstros e sexualidade
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| Départ pour le Sabbat ("Partindo para o Sabá") Albert Joseph Pénot, 1910 |
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Figurações da angústia: o diabo (1)
Já falamos algo aqui sobre o significado psicossexual da crença em bruxas. Eis que o livro de Ernest Jones em que me baseei (On the nightmare - "Sobre o pesadelo") aborda também o investimento de outros monstros; e um dos mais interessantes é o diabo. O diabo é a figuração de uma angústia essencialmente fálica. É a personagem que melhor representa os “aspectos inconscientes do complexo Filho-Pai” (Jones, 1971, p. 156), a alternância entre a imitação do pai e a hostilidade contra ele.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Na captura dos Friedmans
Se há um documentário que esboça abordar a psicodinâmica do processo de acusação e a ancoragem da figura do criminoso sexual na fantasia, é Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki.
O filme reconstitui, utilizando-se de registros em vídeo da época e da coleta atual de depoimentos, a estória do julgamento e prisão de Arnold Friedman e seu filho caçula, acusados de pedofilia. A interceptação pela polícia de revistas de tal conteúdo endereçadas pelo correio ao Sr. Friedman serve como ponto de partida e fornece a única prova material de um processo que adquirirá um escopo e uma visibilidade impressionantes através da proliferação de depoimentos de crianças – supostamente vítimas de assédio durante as aulas ministradas por Arnold – e cobertura midiática intensa. Acompanha-se, passo a passo, a dimensão que o julgamento vai tomando, a mobilização de um número cada vez maior de pessoas em torno da família Friedman, desde os pais de crianças supostamente molestadas até os telespectadores dos noticiários nacionais, e a força que tal mobilização vai aplicando sobre as estratégias e decisões judiciais. Momentos exemplares ocorrem quando os acusados, em desespero, declaram-se culpados de assédio, por insistência de seus próprios advogados, como manobra de barganha em relação à pena. A forma indisfarçadamente diretiva pela qual são colhidos os depoimentos das crianças e as incoerências e contradições que estes evidenciam deixam bem claro o quanto de bom senso estavam todos os envolvidos dispostos a sacrificar, conscientemente ou não, em nome das moções pulsionais que impeliam todo o processo.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Na mídia (2)
Fernando Moreira, blogueiro d'O Globo, postou uma nota sobre um estudo de Psicologia norte-americano que concluiu que a exposição de mulheres a piadas que contestam suas habilidades ao volante as fazem dirigir pior. A notícia, pra mim, faz jus ao subtítulo do blog, mas o que acho "inusitado, curioso e bizarro" nela é que essas piadas ainda existam - só lembro de ouví-las na minha infância. Mas o tema é bom, e me pôs a pensar.
A nota é breve, mas, para os que lêem inglês, aqui há mais detalhes. Fala-se, por exemplo, em profecia auto-realizadora, e de fato o que está em questão aí é a inversão da causalidade tradicionalmente suposta na situação: as piadas não nascem da constatação da real performance das mulheres ao volante, mas a performance delas é que se adapta para se conformar às piadas. Isso porque estas últimas carregam consigo a expectativa, o desejo de quem as profere; são como um convite.
Falávamos de Austin, e ele continua nos acompanhando: se uso termos como "constatação" e "performance" sem perceber, é porque já o tinha em mente. O filósofo dizia que mesmo as mais objetivas afirmações ("constatativas") não descrevem nada, mas são, isso sim, como todo o resto do discurso, atos ("performativos"), instrumentos de ações as mais diversas no nosso invariavelmente humano mundo.
Pois bem, eu dizia que algumas piadas são convites - não só as sexistas, mas as racistas também, e provavelmente muitas outras. São quase um flerte, na verdade, na medida em que anunciam a fantasia do piadista e o lugar que teria nela o objeto da piada.
E qual a fantasia em questão no caso das mulheres ao volante? Talvez nada muito mais complicado do que a constelação mais típica de fantasias heterossexuais, aquelas que de tão comuns ofuscam nosso discernimento e chegam a parecer naturais: a castração, o falicismo, a diferença sexual, até, invariavelmente hierarquizada.
Pra ser nítido, trata-se da fantasia - das mais delirantes - segundo a qual a humanidade está dividida em dois grandes grupos, e a um deles - as mulheres - falta algo que o outro tem. Nesse caso específico, a capacidade de dirigir, não por acaso um termo que tem conotações interessantíssimas, tanto em português - controlar, governar - quanto em inglês - direcionar, forçar, penetrar (!).
Enfim, esse algo que falta sempre foi remetido a diferenças anatômicas - a começar pelas mais óbvias -, biológicas, genéticas e, contemporaneamente, neurológicas. Mas este estudo nos lembra que independentemente das constatativas conclusões neurocientíficas - há muitas, por sinal, que esboçam uma partilha da castração entre os sexos, reservando às mulheres a responsividade emocional e a aptidão para a fluência verbal, por exemplo -, há causas performativas, pulsionais, simbólicas, muito mais determinantes, operando no fundamento das relações humanas - e, claro, não só as de gênero.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Freud implica (6)
"as fantasias são produtos de períodos posteriores e são projetadas para o passado, desde o que era então o presente até épocas mais remotas da infância (...). À pergunta: “O que aconteceu nos primórdios da infância?”, a resposta é “nada”." (Freud, 1996 [1899], p. 327).
Este é de uma das cartas que Freud escreveu a seu correspondente Wilhelm Fliess (carta 101, de 1899).
Bem no início de seu percurso teórico, Freud acreditava que as neuroses eram causadas por traumas sexuais na infância. Aqueles que apresentavam sintomas na adultez teriam invariavelmente sofrido algum tipo de assédio sexual quando crianças. É uma idéia que, hoje, alguns ainda defendem.
Mas já antes da virada para o Século XX, o vienense mudou de idéia, por uma série de motivos, um dos quais o reconhecimento de traços neuróticos em si próprio, aliado à decepcionante constatação de que nada de muito dramático havia ocorrido em sua vida sexual infantil.
Esta citação retrata a reorientação de seu estudo, do trauma para a fantasia. Ela se situa entre dois grandes marcos: foi escrita depois deste abandono de sua teoria da sedução e, mais importante, logo antes (ou durante, aliás) a redação de "A interpretação dos sonhos", livro considerado por muitos, eu incluso, como o marco teórico inaugural da Psicanálise. Foi quando deixou de se preocupar com causas factuais para os distúrbios psíquicos -- ou seja, quando se permitiu algum afastamento da causalidade científica e sua doutrina da verificabilidade -- que Freud pôde mergulhar de fato na lógica própria ao psiquismo, que é fantasística e inconsciente.
Numa situação analítica, pois, desde o Século XIX -- faz tempo! --, o que está em jogo não é o passado, ao contrário daquilo em que ainda insistem os livros didáticos, mas sim as fantasias atuais sobre o passado, que -- e só por isso são nosso foco -- produzem efeitos no presente, a todo momento.
Isto, enfim, define o que entendo como Psicanálise, este recorte -- solipsista, alguns diriam -- que orientou de cabo a rabo a obra de autores como, por exemplo, Melanie Klein. Está muito mais próximo, a meu ver, da análise literária do que das atividades "paramédicas" ou "psicoadministrativas" às quais nós, psicólogos, somos convocados atualmente.
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